Uma placa de mármore quebrada e desgastada é uma das poucas pistas que guardam a memória de um importante movimento de luta pela libertação dos negros em Pernambuco. Poucos prestam atenção, mas ela está lá, no lado esquerdo da parede externa da casa onde atualmente funciona o Lava Jato Guaiamum, na Avenida Rosa e Silva, quase no cruzamento com a Rua Amélia.

Por trás de uma grade, e coberta de fuligem e pingos de tinta, é difícil ler o que ela sinaliza: “Neste local existiu a casa, demolida em 1977, onde o Clube do Cupim abrigava escravos, antes de transportá-los para lugar seguro, durante a campanha abolicionista – Memória do Instituto Arqueológico”.

Local onde fica a placa do Clube do Cupim. (Foto: Mariana Mesquita)

O imóvel original, destruído há quarenta anos, era um esconderijo estratégico pela proximidade com o Rio Capibaribe. O local era utilizado para abrigar escravos fugidos com apoio de abolicionistas entre 1884 e 1888 (ano em que a princesa Isabel decretou o fim da escravidão).

Provavelmente, era uma casinha estreita e comprida como as do casario vizinho ao lava jato, e os fundos da propriedade davam para a Rua do Cupim, daí o nome da via. O clube teve tanta importância que chegou a influenciar o movimento abolicionista em outros estados brasileiros, como o Rio de Janeiro.

O Clube do Cupim ficava neste casario colorido, mas a casa foi derrubada. (Foto: Mariana Mesquita)

Como a sociedade secreta funcionava

O Clube do Cupim se dedicava a facilitar a fuga dos negros – no início, para o Ceará, que havia decretado o fim da escravidão já em 1884. Eles criavam rotas de carregamentos e envios de escravos clandestinos para outros locais, geralmente por via marítima. Os fugitivos eram levados para o Ceará e outros lugares, como Natal, Belém, Manaus, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e até Montevidéu, no Uruguai.

Todo o trabalho era facilitado porque os abolicionistas possuíam adeptos e simpatizantes espalhados por todo o país, numa dinâmica semelhante à que os o cupins-insetos utilizam para se propagar. Havia uma grande quantidade de ‘panelas’, como eram conhecidos os esconderijos dos escravos que buscavam libertar, também numa alusão aos ninhos dos insetos.

Gravura de Debret mostra escravos negros trabalhando na produção do açúcar (Imagem: Divulgação)

O clube chegou a ter vinte sócios efetivos, entre os quais os nomes mais famosos são Joaquim Nabuco e José Mariano (sobre este último, o Por Aqui já escreveu uma matéria). Cada sócio tinha sob suas ordens um capitão, e este mandava em um sub-capitão que, por sua vez, comandava vinte auxiliares. Todos tinham que adotar um “nome de guerra” utilizando os nomes de localidades brasileiras. Dessa maneira, sempre com vinte sócios efetivos, o Clube do Cupim chegou a contar com mais de trezentos auxiliares.

Membro do clube, Joaquim Nabuco foi um dos mais notáveis abolicionistas brasileiros (Foto: Divulgação)

João Ramos, o idealizador

O idealizador do Clube do Cupim foi João Ramos, um maranhense que se mudou ainda criança para Pernambuco e hoje é nome de rua no bairro das Graças. Ele era o “Ceará”, José Mariano atendia por “Espírito Santo” e assim por diante (leia mais sobre os componentes do clube aqui). A sociedade não tinha estatuto e seu único lema era a libertação dos escravos por todos os meios.

Foram realizadas, no total, 21 sessões na sede do Clube do Cupim – até que, no dia 1º de novembro de 1885, os sócios resolveram dissolvê-lo por causa das perseguições. Não tinham mais um local fixo para suas reuniões, porém os “cupins” continuaram a atuar clandestinamente até 1888.

A última façanha do grupo foi o embarque de 119 fugitivos, realizado no dia 23 de abril. Desceram à noite, do Poço da Panela, vindos da casa de José Mariano e Olegarinha, e foram rebocados por etapas até o porto do Recife. Pouco tempo depois, no dia 13 de maio de 1888, foi assinada a Lei Áurea.