Álbum de Figurinhas #4
Por Gisele Lourenço, do Espaço Mercatto

Há alguns meses, a fachada do Espaço Mercatto, na Av. João de Barros, foi pichada. Quem me avisou foi minha filha, passando de bicicleta na frente da loja num domingo. Cheguei segunda-feira já me sentindo indignada pela invasão, pelo desrespeito, pelo custo que teria em pintar novamente a parede. Mas, para minha surpresa, não foi o que senti quando vi as inscrições.

Parei na frente dos rabiscos e levei um tempo tentando decifrá-los. Esse tempo foi suficiente para que me interessasse por eles e, no lugar de querer apagá-los, quisesse juntar-me a eles. Pensava: "Se eles podem pichar minha parede, por que não eu? Se não ficar bom, eu pinto. Mas deixa eu me divertir antes". E lá fui eu, toda felizinha.

Até que tenho alguma intimidade com tintas e pincéis, mas, nas vezes em que experimentei o spray, o resultado havia sido um borrão escorrido. Percebi que havia um domínio, uma técnica no uso do spray que (ainda) não me cabia e preferi usar os pincéis. 

Afinal, a ideia não era estragar a arte deles! Animadamente me coloquei a pintar florzinhas e frases cheias de amorzinho sobre o tom do protesto, em que se lia apenas um "TOIC". Pensei que os grafismos deles seriam as hastes de minhas flores, o suporte de minha criatividade e o impulso para meu desejo e coragem de me jogar na parede, sem maiores julgamentos.

Não sabia se os primeiros artistas chegariam a perceber minha intervenção nem se achariam fora de propósito as hashtags #EUVEJOFLORESEMVOCÊ, #OEspinheiroTemdeTudo e #INTERVENÇÕESURBANASINTERAÇÕESHUMANAS. 

Mas ficou tudo lá, dialogando na parede, sem que ninguém mexesse por bastante tempo. Os vizinhos pichados sinalizaram que tratei com "humor" a "provocação". Acho que houve um respeito e uma reflexão sobre um ditado português antigo que diz: “Da porta pra rua, toda a casa é sua”. Fazia sentido.

Eis que um dia, eu estou na loja e entra um cliente pedindo canetas permanentes. Curiosa que sou, começo a perguntar qual seria a superfície, o uso, a expectativa do resultado, etc e tal, toda entendida das químicas das tintas e desejando atender com qualidade o desejo de meu jovem cliente. 

Diante da relutância dele frente ao bombardeio de perguntas, soltei: "É para parede? É para escrever em parede? É para pichar?"

E antes que o pobre pensasse o que responderia, já fui mostrando também que tenho mania de escrever nas paredes, o resultado disso nas paredes internas da loja e, finalmente, mostrei a fachada. Os risos denunciaram que ele sabia do que se tratava e provavelmente não havia qualquer mágoa na intervenção. Mais perguntas, eu não fiz.

Ganhei um cliente novo e o desejo de comercializar mais tintas, sprays e canetinhas Poska. Ah, as canetinhas Poska! E o cliente voltou e trouxe amigos e batemos papos e trocamos figurinhas (genial esse negócio!). Daí os rapazes me apresentaram ao Sliks, Rafael Sliks, pichador/grafiteiro (Vale a pena conhecer e ver a descrição que ele faz de sua arte). 

Eu até já tinha visto trabalhos dele e já estava apaixonada, mas eu não o conhecia. E fiz o convite para fazermos um mural na fachada da loja com aquela cara de mistura tudo e todo mundo. Ihhhhh….

Rolou muita conversa sobre se era grafite ou era pichação. Se era autorizado e por isso perdia a força do protesto ou se ganhava espaço porque quem autorizava estava também aderindo à causa. Se ia ficar parecendo uma cópia de Sliks ou uma reverência, como desejávamos. Se era para manter o anonimato ou valorizar os artistas. Se eles queriam a exposição, etc. 

Foi muito convencimento de minha parte com direito aos exemplos que eles trouxeram: “Sliks é/era pichador, mostra a cara e não é desqualificado por isso. Ao contrário, é muito valorizado!”. “Não é nem grafite, nem pichação, é arte! Vamos parar de rotular”. “Vocês podem estar abrindo oportunidades para um monte de gente… E um monte de muros tristes por aí!”. 

No final, estávamos discutindo “the same old…”, ou SAMO, como diria Basquiat, pichador/grafiteiro/artista dos EUA.

Mas acho que foi o amor pela tinta que falou mais alto porque, de repente, me vi entrando com eles numa lojinha no Centro onde tinha tudo que eu desejava também comercializar na minha loja: produtos para artistas! E a cartela de cores deles OMG!!!! 

Formamos nossa paleta PANTONE e saímos pela rua. Eu, a tia, com uma deliciosa sensação de liberdade, como quem quebra uma regra e anuncia liberdades    Eu estava apenas indo assistir aos rapazes a ilustrarem "minha" fachada. E eu com pena que não fosse à noite e passasse uma viatura para eu dizer: "Não seu guarda, tá tranquilo, eles estão me fazendo um favor!"

(foto: Eduardo Amorim/PorAqui)

E foi lindo vê-los trabalhando, com calma, com estilo. Desenhando as hashtags como assinaturas perfeitas e, pouco a pouco, legíveis para mim. Foi lindo ver as hashtags se mesclando e algo que era tão único e pessoal como uma assinatura virar um mural coletivo sem a perdas das identidades. 

Vá lá que a correria da noite e das alturas dão um friozinho na barriga carregado de adrenalina, do limite do "tô vivo", indescritíveis, mas aquela serenidade do momento, a beleza do resultado, a satisfação, a compreensão, o encontro… Era um sabor novo e fez tudo valer a pena! "Sexo é isso, amor é aquilo e tal e coisa e coisa e tal…"

É por isso que esses rapazes maravilhosos são o #4 do Álbum de Figurinhas, por ora anônimos artistas das ruas, identificados apenas por sua obra. Eles se chamam UPT – Unidos Pela Tinta! De tanta luz que me passaram. E, claro, são todos maiores, vacinados, estudantes e trabalhadores, nunca picharam muro alheio nem gazetearam aula, nunca tomaram cerveja ou falaram mal de governo nenhum. 

E antes que me passem por formadora de quadrilha por estar incentivando a depredação de patrimônio alheio, advirto: além de urbanista, sou arte-educadora e formo pessoas para um mundo melhor, mais humano, mais respeitoso, mais justo, mais solidário, mais criativo, onde pessoas inteligentes possam dialogar sobre suas diferenças e que acreditem que a troca será a grande riqueza desse encontro. 

Ofereço aos rapazes a possibilidade desse dialogar sem "pré-conceitos" e de ampliar sua expressão (legítima) para outros suportes. O Espaço Mercatto agradece. Então, se você tem um muro por aí todo feioso, chama a gente e olha novamente. A beleza que os olhos vêem está dentro da gente. Como diria o grafiteiro Rafa Matos: "Plante amor!" Ou é pichador Rafa?

Eita! Esse é outra Figurinha…. Leia os textos anteriores do Álbum de Figurinhas aqui!


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