A Prefeitura do Recife está elaborando, em parceria com a instituição sem fins lucrativos WRI Brasil, um projeto de intervenção urbana para a Rua da Hora, no bairro do Espinheiro. O conceito a ser implementado é o de “Rua Completa”, que visa a convivência harmônica dos atores da mobilidade urbana: pedestres, ciclistas, transporte público e particular.

O PorAqui conversou com a arquiteta, professora e pesquisadora da Universidade Católica de Pernambuco, Clarissa Duarte, para saber os benefícios que a iniciativa pode trazer para a região. Ela, que também é coordenadora executiva do Plano Centro Cidadão, convênio entre a Unicap e a Prefeitura, acredita que a intervenção tem muito a agregar ao bairro, se realizada realmente de forma completa e cidadã.

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“É muito boa a iniciativa da Prefeitura ao buscar implantar de forma real esse conceito na cidade. Mas é importante ressaltar que a própria Prefeitura já largou na frente ao trabalhar com a definição ‘Rua Cidadã’, que é tão completa quanto a outra, e norteia o Plano Centro Cidadão há três anos, sendo considerada no plano de mobilidade da cidade. Se a atual gestão souber definir as rotas mais estratégicas da cidade e reabilitá-las, segundo esse conceito, poderemos ter uma cidade bem melhor para se viver em um futuro breve”, destaca.

Clarissa explica que o conceito da “Rua Completa” defende a importância da convivência segura entre os diversos meios de deslocamento. De acordo com a pesquisadora, o foco da concepção defendido pela WRI, apesar de estar mais concentrado na mobilidade, também considera os quatro principais elementos da Rua Cidadã: mobilidade, vegetação, mobiliário e arquitetura. O conceito já trabalhado pela Prefeitura do Recife se apoia justo na visão e planejamento integrado de todos esses elementos.

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Segundo a professora, a intervenção também precisa considerar as áreas privadas que limitam a via. A arquitetura, com seus usos, é elemento essencial no planejamento da dinâmica urbana, embora seja quase sempre desconsiderada ou pouco estudada por especialistas da mobilidade. “A sensação de segurança e conforto nos espaços públicos estão diretamente relacionadas aos lotes privados e a sua forma de se relacionar com a rua”, diz.

A Rua da Hora já tem uma presença marcante de “térreos ativos”, apresentando grande número de comércios e serviços, mas em lugares estratégicos pode ser ainda incentivada a troca de muros por grades, permitindo mais visibilidade e vigilância entre rua e edificação. A iluminação na escala do pedestre, abaixo da copa das árvores, é também atributo essencial para estimular a vida noturna tão característica desse pedacinho do Espinheiro.

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O estímulo ao plantio de árvores dentro da área particular pode ser outra iniciativa inteligente para permitir sombreamento sem tomar mais espaço das calçadas. Teríamos assim, como sugere a arquiteta, sombras compartilhadas. “É fundamental o engajamento efetivo dos moradores e empreendedores da rua na implementação da proposta. Sem colaboração não haverá solução”, enfatiza Duarte.

Um dos desafios do projeto será encontrar alternativas para a redução do número de vagas que se encontram no recuo frontal dos estabelecimentos. “Essas vagas, na verdade, são falsos benefícios para os empresários e seus clientes. Além de tornar mais difícil e inseguro o acesso aos empreendimentos para os próprios clientes, por ocuparem toda a frente do lote, raramente atendem à necessidade real de estacionamento, demandando serviços de manobristas e, muitas vezes, ocupando indevidamente as calçadas”, pondera.

Além disso, de acordo com a arquiteta, essas vagas causam grande transtorno à circulação de veículos públicos e particulares no movimento de entrada e saída. Ainda tem efeito nocivo à segurança e integridade dos pedestres, já que exigem rampas contínuas ao longo do meio fio (irregulares) que inviabilizam a caminhabilidade e aumentam o risco de atropelamentos. “Para completar, essas vagas ‘roubam’ uma quantidade imensa de área vegetada e permeável da cidade, fundamental para evitar os tantos alagamentos que ocorrem em tempos de chuva. Os antigos jardins e calçadas arborizadas foram completamente eliminados para ceder lugar aos carros. Chegou a hora de invertermos essa lógica, devolver ao carro o seu papel de figurante e reconquistarmos, enquanto pedestres por unanimidade e excelência, nosso protagonismo cidadão nas ruas da cidade.”

Há 15 anos, Clarissa Duarte pesquisa e defende o conceito de Rua Cidadã, que atualmente está sendo aprofundado e aprimorado no planejamento da prefeitura e nas pesquisas do laboratório Humanicidades da Unicap. A pesquisadora já realizou diagnósticos e diretrizes de desenho urbano para dezenas de ruas na cidade do Recife, baseados na metodologia que desenvolveu a partir de sua dissertação de mestrado na Universidade de Paris 1-Sorbonne, intitulada “O Desenho da Coexistência”. “Rua é lugar de vida urbana, coexistência e encontro de pessoas. A circulação é apenas uma das funções da rua, não a única. Esse olhar é de fundamental importância para conquistarmos ruas verdadeiramente completas e cidadãs”, acredita.

Rua completa

O conceito de Rua Completa é usado pela WRI Brasil Cidades Sustentáveis que coordena a Rede Nacional para a Mobilidade de Baixo Carbono, da qual o Recife faz parte junto a cidades como São Paulo, Niterói, Porto Alegre, João Pessoa, Campinas, Joinville, Salvador, Juiz de Fora, Fortaleza e o Distrito Federal. A rede promove a disseminação de ruas completas por meio de projetos que visam soluções para a democratização dos espaços urbanos, priorizando os deslocamentos a pé e de bicicleta porque não emitem gases de efeito estufa. O projeto piloto para a Rua da Hora, escolhida na capital pernambucana, vai ser elaborado para favorecer meios de transporte não poluentes e garantir um ambiente de mobilidade seguro.

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