Cada vez mais se lê histórias em quadrinhos pela internet. Sem querer enfrentar essa realidade e, sim, acrescentar uma nova perspectiva para os fãs das HQs é que aparece nas bancas e lojas geek a Plaf. Editada em Pernambuco por Carol Almeida, Dandara Palankof e Paulo Floro, a revista nasce com a proposta de ser um veículo crítico de divulgação do atual momento da produção autoral de quadrinhos no Brasil.

O primeiro número traz um ensaio sobre a representatividade LGBT nas HQs hoje e uma capa bastante representativa da quadrinista mineira Lu Cafaggi. Além disso, vem com uma entrevista com o quadrinista André Dahmer (Malvados), realizada no dia seguinte à derrota de Marcelo Freixo para Crivella nas eleições do Rio de Janeiro, e reportagem sobre a também pernambucana Ragu (HQ nascida nos anos 90 e editada por João Lin e Christiano Mascaro).

A Plaf também trará, a cada edição, HQs inéditas e exclusivas. “O mundo dos quadrinhos é o mundo todo”, diz o mote da revista. A publicação já está à venda e será lançada no próximo dia 2, no Espinheiro, na EVStore. Confira aqui todos os detalhes do evento.

Em entrevista ao PorAqui, Carol Almeida conta como os três editores iniciaram o projeto e deixa claro que a revista pretende mostrar a muita gente a importância das HQs para falar sobre absolutamente tudo. Leia abaixo!

Festinha será sábado, 2 de setembro, a partir das 15h, na Rua Conselheiro Portela, 417, Espinheiro (Foto: Divulgação/Plaf)

PorAqui – Os três organizadores da Plaf estudam quadrinhos, são amigos de muito tempo? Como foi que pensaram em começar esse projeto?

Carol Almeida – Então, conheço Paulo Floro de muito tempo, tanto a partir do trabalho dele na revista O Grito, quanto pelo Jornal do Commercio. A gente sempre trocou ideias sobre quadrinhos, porque, durante muito tempo, eu tive uma coluna semanal sobre HQs no mesmo JC, onde depois ele foi trabalhar.

Daí que o próprio Paulo começou a instigar de fazer esse projeto de uma revista que falasse e debatesse criticamente os quadrinhos e, quando me chamou pra fazer parte do projeto, me apresentou a Dandara.

Eu e Dandara nos conhecemos, na verdade, durante uma disciplina sobre Estética no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da UFPE, mas eu não sabia, até então, que ela era tradutora de alguns dos quadrinhos que eu mais amava na vida. Então, quando ele juntou todo mundo, as coisas começaram a fazer sentido.

PorAqui – A Plaf nº 1 me parece mais sobre política do que efetivamente sobre quadrinhos. Vocês pensaram em fazer esse primeiro número como uma resposta ao momento que vivemos no Brasil e no mundo? Porque talvez depois até os caminhos possam ir mudando…

Carol Almeida Na verdade, acho que a ideia que atravessa todos nós que fazemos a revista é que as histórias em quadrinhos, assim como outras manifestações artísticas – o cinema, a literatura, a música -, espelham também o mundo lá fora.

Sim, há um posicionamento político e identitário nosso em colocar como primeira capa a necessidade de representação queer nos quadrinhos, mesmo porque somos nós três pessoas queers que amamos quadrinhos, mas acho que, para além disso, existe um ser político em todxs nós que fazemos a Plaf.

E isso vai estar presente em várias outras pautas, inevitavelmente. Não significa que toda capa ou toda matéria tenha essa centralidade. Nessa primeira edição, por exemplo, temos infográfico divertido sobre Tintim, resenhas de HQs que em nada puxam para o debate político e HQs inéditas que correm por fora dessa discussão também.

Nossa proposta geral é: 1) entender os quadrinhos como uma ferramenta de diálogo com o mundo; 2) se debruçar sobre as especificidades da linguagem; 3) valorizar aspectos da memória dos quadrinhos, porque as coisas se apagam muito facilmente.

Mas te respondendo resumidamente sobre esse caráter crítico da revista, sim, somos pessoas que, ao menos, tentamos estar mais atentas ao cenário sociopolítico que nos cerca e à sub-representação das mulheres, dos negros, dos LGBTQs e de várias outras identidades subalternas. Então isso vai aparecer na Plaf porque isso está em nós.

PorAqui – Fico com impressão de que esse mercado dos quadrinhos também migrou fortemente para o digital. Uma revista impressa seria a forma de ajudar a criar essa memória? Aprofundar um diálogo, porque certamente as pessoas vão continuar tendo mais contatos cotidianos pelas redes com os diversos formatos de HQs?

Carol Almeida Sim, a ideia de apostar num projeto de uma revista impressa passa também por essa tentativa de fortalecer e fixar uma memória da história das Histórias em Quadrinhos. É também um jeito “old fashion” de dizer: gente, que tal desacelerar um pouco e, de fato, pensar que os quadrinhos pedem por essa textura, cheiro e tato do papel?!

O digital é incrível, viva o digital, viva a democratização dos meios, sem o digital eu não leria várias HQs das quais virei fã. Mas lançar uma revista impressa sobre tudo isso também é uma forma de dizer que precisamos registrar e deixar gravado em plataformas físicas e hápticas essa história das HQs.

Temos uma seção, por exemplo, chamada HQpédia, que tenta fazer isso e, nesse número 1 da revista, a gente está muito feliz que a pessoa a ser lembrada é uma mulher negra que foi pioneira nas HQs no Brasil e cujo nome precisa ser frisado sempre: Maria Aparecida Godoy. Colocar Maria Aparecida no papel é importante, é necessário.