Álbum de Figurinhas
Por Gisele Lourenço, do Espaço Mercatto

O Espinheiro é formado por moradores, empresários, funcionários e mais um conjunto de pessoas que PorAqui transita cotidianamente. Com quase quatro anos de Espaço Mercatto, vejo que os carteiros, varredores, funcionários da Celpe, entre outros, se mantém os mesmos.

Alguns poderiam passar invisíveis aos nossos olhos, de um jeito que a gente nem sente – tão esporádico é o contato. Outros se fazem presentes.

Luiz Olívio Barbosa tem 50 anos. Trabalha há 26 anos como gari e há 11 anos atende o bairro do Espinheiro, na Zona Norte do Recife. Luiz conhece todo mundo do bairro e muita gente conhece Luiz. Talvez você o conheça como “Pirata”, que é como todos o chamam.

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O apelido veio como consequência de um acidente sofrido nas brincadeiras com o badoque quando ele tinha 13 anos e perdeu a visão do olho esquerdo. Com a perda, instalou-se uma depressão que o confinou por quatro anos.

Ninguém diz! Luiz é uma alegria só! Gaiato como poucos, ele não perde uma chance de fazer piada de tudo. Tem um jeito informal e é capaz de entreter qualquer um com suas conversas. Além disso, tem um coração gigantesco. É o típico “gente boa” do pedaço.

Gisele costuma conhecer muita gente através de Luiz (Foto: Eduardo Amorim/PorAqui)

Luiz trabalha como gari entre 6h e 14h, daí em diante faz serviços gerais para vários moradores e comerciantes do bairro: consertos de telhado, limpeza de calhas, jardinagem, entregas, faxina, pintura, pagamentos, etc. E nessa função vai unindo as pessoas.

É comum que ele chegue à Mercatto e peça dois tijolos num dia, um punhado de areia no outro, leve o serrote emprestado ou a colher de pedreiro. Da mesma forma, arranja uma escada quando preciso, ou uma chave-teste, ou outro punhado de areia.

Pergunto “Pra quem é Luiz (ou de quem é)?”, e ele acaba me contando uma história, me apresentando alguém ou a algo novo. De certa forma, com essa capacidade de conectar-nos em rede, esse Pirata ao avesso promove segurança em nossa “rota comercial” e protege nossos “tesouros”, porque essa “alma boa” está sempre alerta às demais.

Engana-se quem acha que, no jeito brincalhão e divertido, ele não percebe o entorno. Luiz vê tudo! Em tom de brincadeira (e considerando as adversidades, a superação e a possibilidade de arrancar uma nova risada dessa Figurinha Rara que percebo), repito sempre o ditado que diz “Em terra de cego, quem tem um olho é rei”!