Por Célio Muniz*

Inicio este texto logo nos primeiros dias de 2019 para relembrar o quão essencial é este bem que torna nosso planeta azul habitável, e fez da Terra um “ninho cósmico” que refugia e abriga inúmeros seres dentro desta biosfera.Feto

A água envolve a, nós seres humanos, ainda em nossa vida intrauterina através do líquido amniótico que nos aquece e protege. Dependemos da água desde antes do nascimento.
É tão importante a presença da água para o desenvolvimento da vida que é a primeira condição para se buscar habitabilidade em outros planetas.

É curioso que a mesma proporção de água em relação à quantidade de solo no nosso planeta, algo em torno de 75%, se repita em nosso corpo em relação aos demais tecidos, ossos e músculos.

Deveríamos, portanto, estudar e elaborar mais políticas públicas que permitissem ampliar e universalizar o acesso à água. Principalmente por ser unânime, entre os pesquisadores e médicos sanitaristas, que o acesso à água tratada é a melhor forma de praticar a profilaxia, evitando-se diversas enfermidades.

Água

Desafio

Satisfazer a sede mundial é um dos maiores desafios técnicos e humanos deste século. Entretanto, este será o século em que a humanidade deverá viver o colapso do abastecimento de água, principalmente nos países periféricos. Os analistas preveem que a partir 2030 o mundo vai enfrentar uma escassez permanente de água. A procura será 40% superior à oferta. Alguns países já vivem esta realidade, como as nações da África subsaariana e diversas outras no Oriente Médio.

Com este cenário nada promissor, rapidamente a água ocupará o lugar de destaque hoje reservado ao petróleo na geoeconomia mundial. Será, sem dúvida, a principal commodity que definirá a origem dos recursos que formarão os próximos multibilionários.
São inúmeros os fatores que, somados, dão uma noção destes prognósticos nada otimistas, como o aquecimento global – que por sua vez leva à redução do volume de precipitações pluviométricas (chuvas) regulares e produz mais evaporação dos aquíferos superficiais –, o aumento da população e também a migração da população das zonas rurais para as áreas urbanas.

Banho

Desperdício

Tomemos como exemplo uma família de brasileiros de cinco membros, que tenha migrado do semiárido para uma das regiões metropolitanas do nosso litoral. Esse núcleo familiar, que tinha acesso limitado à água, e em alguns casos tinha que andar várias horas por dia para buscar este líquido precioso, de repente vem morar em uma casa com água encanada e passa a dispor de água em abundância de modo nunca visto.

É normal, sobretudo se a sua casa se situar dentro de uma comunidade de baixa renda, que a ligação seja clandestina, e portanto sem custo para a família. Portanto, esse consumo, antes situado na casa dos 100 litros por pessoa dia, tende a rapidamente a ser triplicado pelo próprio deslumbramento com o súbito conforto.

Por outro lado, se o consumo de água tratada cresce exponencialmente, o mesmo não se pode dizer dos efluentes sanitários gerados por este consumo. Sem o devido tratamento, esta água antes potável torna-se um esgoto contaminado, após o consumo, sendo devolvido aos cursos de água, poluindo este mesmo rio de onde foi captada, e cuja jusante poderia abastecer outra cidade. O exemplo, neste caso, é o rio Tietê, em São Paulo, que entre as décadas de 1920 e 1930 via seu leito abrigar campeonatos de natação. E hoje tristemente é pura e simplesmente um canaleta de esgoto a céu aberto.

singapura

Singapura

Para que possa encerrar este texto com uma previsão mais otimista e menos alarmista, quero deixar o exemplo de Singapura, que é uma cidade moderna, ambiciosa e complexa. Uma cidade-estado que sempre soube que a gestão da água era uma questão fundamental.
Desde antes da independência, ainda durante o domínio britânico, Singapura já importava água da Malásia. Por isso, o tema sempre foi uma das prioridades daquele povo.

Uma das estratégias que adotaram foi a reciclagem em larga escala, processando as águas residuais e transformando-as em “newater”. Para eles é inconcebível que se jogue água limpa, filtrada e clorada no vaso sanitário, apenas para transportar fezes para a fossa. Segundo as autoridades de Singapura, apenas com esse processo fica garantido um terço das necessidades da cidade.

A gestão da água, em Singapura, é levada tão a sério que os cidadãos são constantemente levados a pensar nela e exercitar formas de controlar o desperdício. A barragem da marina da cidade é um exemplo. Criada inicialmente para impedir que a maré alta inundasse a parte baixa da cidade, tornou-se uma fonte de abastecimento d´água depois que foi desenvolvida uma tecnologia de membranas que torna o líquido potável. Além disso, tornou-se também um agradável lado recreativo no coração da cidade.

Água

Novas fontes

Cidade insular, Singapura está rodeada de mar e seus governantes entendem que reciclar e armazenas água é muito importante, mas tão importante quanto é encontrar novas fontes de abastecimento. As empresas locais há muito despertaram para isso e se especializaram em transformar água salgada em água potável. Para se ter uma ideia, dez anos atrás elas construíam por ano apenas cinco ou seis centrais de dessalinização. Hoje em dia esse número chega a ser 20 vezes maior só com pedidos de outros países.

Assim como Singapura, muitas cidades costeiras do mundo contam com o mar como fonte de água. E em todo o mundo as cidades estão crescendo e com elas a necessidade de um maior abastecimento. Quer falte, quer seja em excesso, a água tem um efeito predominante na vida cotidiana de qualquer urbe. Manter o abastecimento de água potável, portanto, é um desafio em escala mundial.

* Célio Muniz é morador de Aldeia desde 2006, consultor ambiental e membro do Fórum Socioambiental de Aldeia.

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