Nas primeiras horas da manhã o movimento de pessoas trabalhando na tenda já era grande. Homens e mulheres, adultos e crianças, todo tipo de “afilhados” começavam a chegar carregados de sacolas com comidas, bebidas e enfeites super coloridos para ajudar na arrumação da grande festa. Era sábado, 26/5, e os afilhados da Tenda Cigano Ramires preparavam as comemorações ao Dia de Santa Sara, padroeira dos ciganos. Veja um pouquinho da festa no vídeo a seguir:

A Tenda Cigano Ramires funciona no número 35 da rua Miguel Couto, em Aldeia, há um ano. Antes, e por 23 anos, funcionou em Pau Amarelo. A madrinha da tenda é Maria das Graças Gomes de Oliveira, que em nome da cigana Rosi, orienta afilhados não só de Pernambuco, mas de diversas partes do país e até no exterior.

Na tenda há vários cantinhos com objetos dedicados ao povo cigano
Na tenda há vários cantinhos com objetos dedicados ao povo cigano

A mediunidade de Graça foi revelada quando ela ainda era criança e até hoje, aos 57 anos, ela se dedica à vida cigana e a ajudar quem precisa. De uns anos para cá tem ido em busca de outro antigo sonho: terminar a faculdade de Gastronomia.

Trabalho em grupo

A decoração da festa foi toda feita em mutirão pelos afilhados da tenda
A decoração da festa foi toda feita em mutirão pelos afilhados da tenda

Há uma semana um grupo de afilhados entra e sai da tenda – casa com diversos ambientes de oração onde acontecem os atendimentos e encontros – arrumando tudo para o sucesso da festa. Afinal, o Dia de Santa Sara é um dos dois momentos anuais em que a comunidade cigana se reúne para festejar. O outro dia é em outubro, quando se comemora o Dia do Povo Cigano.

Mais imagens sagradas para o povo cigano
Mais imagens sagradas para o povo cigano

Na tenda de Aldeia, os atendimentos são feitos nas terças e quintas-feiras. A cigana joga cartas, aconselha e prescreve banhos de ervas e orações para tratamentos espirituais. O baralho cigano mostra o que pode estar causando determinadas situações que incomodam o cliente e os espíritos ciganos orientam os tratamentos.

À medida em que os frequentadores da tenda vão desenvolvendo sua mediunidade, tornam-se mais intuitivos e podem decidir se unir ao povo cigano. Neste caso, são batizados e passam a ser afilhados da tenda e a se referir a Graça como madrinha.

Uma das mesas montadas com as comidas servidas na festa
Uma das mesas montadas com as comidas servidas na festa. Foto: Carlos Junior Fotografia
Apesar da crise dos combustíveis, a festa recebeu convidados de várias partes
Apesar da crise dos combustíveis, a festa recebeu convidados de várias partes

A festa

A festa começa quando o dia cai e a fogueira pode ser acesa, somente pelos homens presentes, depois de darem nove voltas em torno dela enquanto as mulheres batem palmas. Seguem-se vários rituais de limpeza e purificação espiritual. Vestidos a caráter, os ciganos acolhem os convidados que, um a um, lavam as mãos num preparado de ervas, são abençoados por orações e defumação com incensos e recebem um punhado de erva doce que, representando suas angústias e dores, será atirado ao fogo.

Ritual em que os homens dão nove voltas antes de acender a fogueira
Ritual em que os homens dão nove voltas antes de acender a fogueira
Quase toda a festa deu-se em torno da fogueira, com orações e muita dança
Quase toda a festa deu-se em torno da fogueira, com orações e muita dança
A madrinha da tenda, cigana Rosi
A madrinha da tenda, cigana Rosi
As ciganas se divertem com música e dança típicas
As ciganas se divertem com música e dança típicas

Uma grande parte da festa var se dar em torno da fogueira, com incorporação de espíritos ciganos, muita reza, dança, abraços, risos, distribuição de rosas e uma grande celebração ao povo cigano.

Casamento cigano

Durante a festa do último sábado houve a celebração de um casamento. A biomédica e cigana E.L., 28, e o comerciante católico N.P., 50 anos, vieram de Bonito, no interior do Estado, para receber as bênçãos ciganas. Pedindo para resguardar o anonimato, E.L. conta que se juntou à comunidade cigana há cerca de quatro anos, quando conheceu a tenda Ramires.

Houve também a celebração de um casamento cigano durante a festa em Aldeia
Houve também a celebração de um casamento cigano durante a festa em Aldeia

“Nasci católica, mas sempre me identifiquei com o espiritualismo. Quando conheci os ciganos senti na hora que era ali que eu me encaixava”, conta. Como mora longe, tenta viajar uma vez por mês para visitar a tenda e participar das reuniões. Ela diz que ainda não tem permissão para botar cartas para os outros, mas pratica diariamente sua fé na Santa Sara, no cigano Ramires e na madrinha Rosi, rezando num cantinho especial que tem em casa. “Não podia deixar de vir pedir a bênção do povo cigano ao nosso casamento”.

Tenda Cigano Ramires
Rua Miguel Couto, 35, Aldeia (km 9,8, rua da Água Mineral Santa Joana)
Telefone: (081) 99975-2776