“Camaragibe realiza atividades em comemoração à Semana do Meio Ambiente”. Quando li esta manchete em documento divulgado pela equipe de Comunicação do município de Camaragibe, logo me surgiu uma curiosidade: Qual será a programação prevista para o Parque Aldeia dos Camarás? Para minha decepção, confirmou-se o que eu já imaginava. Nenhuma atividade comemorativa para o ano de 2019 incluía nosso Parque.

E digo “nosso” Parque sem a menor dúvida de que, apesar do decreto publicado no Diário Oficial do município em dezembro de 2018, que alegava não existir “interesse público” na manutenção daquele equipamento, trata-se de um espaço muito importante para a Área de Proteção Ambiental Aldeia-Beberibe.

Coberto pelo mato
Coberto pelo mato

Levanto aqui algumas razões que a meu ver justificam porque o Parque Aldeia dos Camarás deveria compor a programação comemorativa do município.

Destaco, em primeiro lugar, a relevância do Parque enquanto área verde. Afinal, são oito hectares de mata (sendo 1,2 hectares a serem reflorestados), uma nascente do rio das Pacas, uma variedade de pássaros, fruteiras e flores. É também um local onde recentemente foram plantadas cerca de mil mudas de árvores e que abrigaria um viveiro de mudas e uma unidade de processamento de resíduos orgânicos, mas infelizmente perdemos essa oportunidade por inoperância da gestão do Parque.

Mil mudas plantadas há um ano
Mil mudas plantadas há um ano

Um leitor pouco familiarizado com a área de Aldeia talvez argumente que essas características são facilmente encontradas em diversas outras localidades próximas ao Parque. Meu contra-argumento, no entanto, é que existem, sim, áreas com alguns desses elementos, porém praticamente todas estão muradas ou situam-se dentro de condomínios fechados, com acesso restrito. Assim, sem o Parque, a maior parte dos moradores não poderá desfrutar desses recursos naturais.

Além disso, apesar do estado de abandono em que se encontra já há bastante tempo – matagal sem cuidado, falta de iluminação, prédio sede sendo depredado, falta de segurança –, o Parque é utilizado cotidianamente por um grupo diverso de pessoas.

São mães e pais que circulam de bicicleta levando seus filhos pequenos para a escola; são moradores das redondezas que utilizam a pista para caminhadas na pista de 1.600 metros; são atletas maratonistas que treinam no espaço; são jovens capoeiristas que ensaiam suas acrobacias; são grupos de crianças que frequentam projetos sociais que realizam encontros de lazer; são estudantes e seus professores que realizam etapas de seus projetos de pesquisa na área ambiental; são trabalhadores que descansam no seu intervalo de almoço.

Atividades infantis
Atividades infantis

Enfim, é um local que agrega crianças, jovens, adultos e idosos e por onde circulam muitas pessoas que dão diferentes usos ao espaço e, certamente, será muito melhor aproveitado quando as suas condições de uso estiverem apropriadas.

Por fim, diferentes grupos organizados do bairro também têm se mobilizado em defesa do Parque, o que evidencia que há, sim, muito interesse em tornar esse espaço um equipamento de relevância ambiental e sociocultural.

Cito dois exemplos. O Fórum Socioambiental de Aldeia, em diferentes momentos, já promoveu intervenções para benfeitorias no Parque e tem atuado como membro do Conselho da APA na busca de soluções para que esse equipamento cumpra plenamente sua função.

Protesto no parque
Protesto no parque

Mais recentemente, um outro coletivo de moradores do bairro, o Abayomi (que escolheu esse nome como uma referência à resistência das mulheres escravizadas que confeccionavam com tecidos de suas roupas bonecas de pano para seus filhos) também tem realizado ações em defesa do Parque e para chamar a atenção sobre o direito que temos de que ele continue sendo público. Esse grupo já promoveu atividades lúdicas, tardes de leitura, fez a marcação da pista de caminhada e entrou com uma ação junto ao Ministério Público contestando o decreto municipal que “devolve” o Parque a seus antigos proprietários.

Assim, existe um grande potencial para que o Parque seja gerido de forma compartilhada entre poder público e instâncias organizadas da sociedade.

Essas são apenas algumas razões porque é inaceitável que o Parque Aldeia dos Camarás esteja fora da programação que celebra o Meio Ambiente em nosso município.

Ester Rosa é educadora e moradora de Aldeia há 15 anos.

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