Clara e Adam Phillips se apaixonaram 17 anos atrás, assim que se viram pela primeira vez, quando ela chegou para estudar no país dele, os Estados Unidos. Desde então estão juntos e hoje, morando em Aldeia, adotaram um estilo de vida cada dia mais voltado para a sustentabilidade, respeitando o meio ambiente e procurando consumir menos e produzir mais.

Desde novembro do ano passado, eles estão construindo, com as próprias mãos, a casa onde querem morar. Uma casa feita de muito suor, sonhos, sacos de ráfia cheios de superadobe e alguns rolos de arame farpado.

O primeiro saco da construção, assinado pelo casal e amigos que ajudaram
O primeiro saco da construção, assinado pelo casal e amigos que ajudaram

A construção da casa ecológica é parte de uma ideia que permeia o dia a dia do casal. Clara é quem explica: “A sociedade nos diz o tempo todo que não somos capazes disso e daquilo, nos fazendo escravos da modernidade, do dinheiro e da indústria. Mas somos capazes, sim. Nós aqui estamos construindo nossa própria casa; todo mundo pode fazer o que tiver vontade”.

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Assista ao time-lapse de parte da construção feito por Clara e Adam:

Desde que conheceram a permacultura – ele, nos Estados Unidos; ela, em Olinda –, poucos anos atrás, começaram a pensar diferente em relação a muitas coisas. Eles não veem televisão, não querem ter filhos por acreditarem que já há gente demais no mundo, produzem seus próprios produtos de limpeza pessoal com ingredientes naturais e tentam se distanciar cada vez mais de tudo o que “dita o sistema”.

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Casa sustentável

Clara recolhendo pedaços de concreto que iam ficar jogados na natureza
Clara recolhendo pedaços de concreto que iam ficar jogados na natureza

Clara, 37 anos, é professora de robótica numa escola particular. Adam, 39, é eletricista, marceneiro, carpinteiro e artista plástico. A ideia da casa surgiu quando eles tiveram a oportunidade de comprar um terreno em Aldeia. Como nos Estados Unidos, onde ele nasceu e ela morou por 13 anos, há uma forte cultura do “faça você mesmo”, eles resolveram arregaçar as mangas e levantar as paredes com as próprias mãos.

“Nos Estados Unidos, é comum. As pessoas convidam seus amigos para ajudar e todo mundo trabalha junto, é uma forma de se integrar socialmente também”, conta Adam. “No Brasil, é um pouco diferente. As pessoas estranham um pouco e até perguntam se vai ter cerveja, uma banda…”, diverte-se.

O concreto reutilizado no alicerce da casa
O concreto sendo reutilizado no alicerce da casa

Depois de terem a ideia, eles pesquisaram e começaram a planejar a casa sustentável. “A gente acorda e vai dormir pensando na casa”, diz Clara. Desde o fim do ano passado, quando saíram catando metralhas de concreto e fizeram o alicerce da casa em semicírculo, eles dedicam todo o tempo possível à construção.

Adam passa seus dias lá e Clara ajuda o marido sempre que não está dando aulas. Se a chuva der uma trégua e eles conseguirem alguém para ajudar, a previsão é de que a obra esteja pronta em dois ou três meses.

Superadobe

A técnica de superadobe, escolhida por eles, é bem simples. São sacos de ráfia de cerca de 40 quilos de uma mistura de barro e entulho de construção processado (que eles compram de uma empresa de Camaragibe) empilhados para formar as paredes. Entre uma camada e outra vão dois arames farpados que engancham um saco no outro. O reboco das paredes será feito de barro, goma (de polvilho doce), areia e estrume de cavalo.

Testando o reboco
Testando o reboco com os pés

Além de simples e barata, a técnica não é nada nova. “O homem faz casa com argila há milhares de anos. O concreto é que é uma técnica nova e poluente”, lembra Adam. E o fato de se aproveitar restos de obras torna a ideia ainda mais ecológica. Clara cita um muro que ela e o marido construíram nos Estados Unidos com pedaços de um deck de concreto que estava rachado. Além de útil, o muro ficou tão bonito que recebeu muitos elogios dos amigos.

Sacos de superadobe empilhados e presos por arame farpado
Sacos de superadobe empilhados e presos por arame farpado

“Aqui no Brasil”, ela lamenta, “o que a gente mais vê são restos de obras se perdendo por aí. Ninguém aproveita nada. Basta ver a quantidade de entulhos que a reforma da BR-101 está gerando e que poderia estar sendo usada na construção de moradias para quem não tem casa. É lamentável”.

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