Existem pessoas predestinadas a se comunicar com o mundo e contar sua própria história de vida através da criação artística. Milton Pessoa, 35 anos – ou melhor, Ganjja Pessoa, ou, ainda, Ganjjarts – parece ser uma delas. O artista visual, morador de Areias, na Zona Oeste do Recife, tem um trabalho muito particular, traços característicos que trazem universos espirituais, trajetos de vida e um olhar que reflete descobertas do seu autoconhecimento.

“A minha arte é minha expressão natural, é como se fosse um diário meu”, conta Ganjja, que tem um ateliê em sua próprio lar. Ilustrações, pinturas e instrumentos de trabalho (tintas, lápis, pincéis, telas, papeis e demais apetrechos) preenchem e colorem todo o ambiente que se encontra logo na entrada da sua casa. É o que ele respira e vive diariamente.

(Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

O trabalho artístico de Ganjja é carregado de psicodelia, surrealismo e arte visionária, assim como uma forte presença do xamanismo, do qual é adepto. “Curto muito de desenhos indígenas, andinas, civilizações pré-colombianas”.

Além de dar vida a telas de cores intensas e de forte identidade, ele é tatuador, ilustrador, realiza trabalhos em design gráfico, como cartazes e capas de discos. Seus traços se encontram na obra de artistas como Di Melo (o encarte do disco Imorrível), Quarto Astral, Juvenil Silva (ilustra do clipe Meu Freewheelin do Bob Dylan). Atualmente, ele está trabalhando nas capas do próximo disco da banda Café Preto e do primeiro livro de Cannibal. Ganjja acredita ter mais de 200 obras.

Seu processo de criação é de entrega total. “Quando eu pego uma tela, entro numa imersão e vou nela até a exaustão. Só paro para as necessidades básicas: comer, beber água e banheiro. Tem telas que eu posso pegar e só terminar em 3 dias. Se eu tiver com outras obrigações no meio do caminho, aí levo mais tempo”.

E o destino dos seus traços é totalmente intuitivo. “Eu vejo uma tela em branco e vou riscando, as formas vão saindo, eu vou me surpreendendo com aquilo e vou fazendo. É um processo muito jazzístico. Eu vejo e sinto que terminou, não tem muita explicação. Não tenho um método muito sistemático. É jazz”.

A música, em especial, está presente na sua arte. “Eu sou movido à música”, diz. Cinema e Literatura também têm função importante na sua inspiração. “É processo antropofágico puro. Tudo o que eu puder digerir de todos os movimentos artísticos, eu tô digerindo, e ‘vomitando’ isso na forma da minha arte e da minha vivência. Eu destilo arte diariamente: o traço, a tatuagem, as cores, tudo”.

Ambiente de trabalho (Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Primeiros traços

O interesse de Ganjja pelo desenho veio cedo. Com cerca de 4 anos de idade, os gibis lhe fisgaram primeiro. “Sempre fui muito fã de quadrinhos. Antes de eu aprender a ler, eu já compreendia muito mais a imagem das coisas e isso me estimulou a criar minhas próprias historinhas, personagens”.

Um incentivo artístico essencial partiu do tio, o músico Silvério Pessoa. “Foi ele quem me inseriu na arte, com seus vinis, gibis e livros. E ele sempre deixou muito livre para eu pegar, ouvir e ler as coisas. Eu tive muita sorte de poder ter esse acesso e essa liberdade”.

Luiz Gonzaga by Ganjja Pessoa (Foto: Reprodução/Instagram)
(Foto: Reprodução/Instagram)

Como toda criança, as primeiras curiosidades acerca dos quadrinhos convergiam para o trabalho de Maurício de Souza. “Eu também curtia muito as coisas da Marvel, da Disney, os heróis da DC Comics, esse universo clássico dos quadrinhos foi o que deu o engate pra entrada nesse universo do desenho”.

Depois, mais velho, o que lhe chamou a atenção foram os quadrinhos subversivos dos anos 1960 – representados por Robert Crumb, Zap Comix, Alan Moore – e também os cartunistas brasileiros Angeli, Laerte e Glauco.

(Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

No Recife, dois artistas em particular abriram sua mente para entender o desenho além do mundo dos quadrinhos: Guga Baygon e Moa Lago, do coletivo Subgraf, surgido nos anos 1990. “Quando eu vi a arte desses caras, eu vi que tinha possibilidade de eu fazer mais coisas: de botar pra rua, de fazer camisas, esculturas. Foi um grande impulso pra mim esse encontro com a arte urbana”.

Desde então, vem fazendo da sua arte praticamente uma guerrilha de sobrevivência no dia a dia. “Vivo da arte que faço, de uma resistência que vem de quase 20 anos. O pernambucano, o recifense consome muito o que é de fora, como se desse um certo glamour. E existe muita coisa boa aqui”.

Tatuagem, xamanismo e autoconhecimento

Há cerca de 2 anos e meio, duas coisas entraram na vida de Ganjja: o xamanismo – com a iniciação na Jurema – e a tatuagem. Esta, como extensão do seu trabalho com os traços. A outra, como uma busca de autoconhecimento que também influenciou sua arte.

A espiritualidade lhe fez mergulhar em universos dentro de si mesmo, e em um processo de descoberta constante. “Foi através do xamanismo que eu cheguei no meu espírito e tenho compreendido mais sobre minha arte. Muitas coisas mais íntimas que vêm à tona através desse autoconhecimento”, diz Ganjja. “Foi uma real modificação na minha vida, em como eu lido com o próximo, com minha família e com a minha arte”.

Tattoos de Ganjja Pessoa (Foto: Reprodução/Facebook)

A tatuagem surgiu neste mesmo período. “Eu ampliei as superfícies em que desenho, né? Tela, papel, madeira e, agora, a pele humana”. A espiritualidade, que lhe trouxe autoconhecimento, serenidade, mudança de hábitos e disciplina, acabaram também influenciando no exercício de tatuador.

“Tatuar é uma responsabilidade muito grande, deixar uma marca em outra pessoa. Então, foi mais um processo de reeducação, que me impôs ainda mais disciplina. Eu consegui transcender muita coisa que eu tinha medo, por exemplo: a responsabilidade que eu tenho com o outro”.

Ganjja é um dos tatuadores da ZV Tatto e Galeria, no Pina.

Ganjja Pessoa
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