São 22 anos dedicados à fabricação e venda de comida árabe congelada, mas a história de Dona Sônia começou bem antes, cerca de 100 anos atrás, quando começou a se formar a comunidade árabe no Pina. Ela nasceu pinense, filha de pai sírio e mãe libanesa, e, há 74 anos, carrega muitas das heranças da família.

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Uma dessas heranças é o comércio na casa onde nasceu, na Av. Antonio de Góes. “Minha mãe era quem fazia tudo e vendia. Mas a idade veio chegando e ela ficou com mal de Alzheimer”, conta. “Foi quando eu voltei da Bahia comecei a trabalhar com ela”, acrescenta. Ela aprendeu a fazer tais delícias ainda quando criança. “Eu gostava muito e ir à praia, mas só podia ir depois que fizesse a comida com minha mãe”, lembra.

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Em sua loja/casa, Dona Sônia vende kibe de forno e para ser frito, kafta, esfihas, charutos, enjadra, homus, tabule, falafel e pão sírio integral. O telefone é 3326-3987. Ela tem produtos para pronta entrega e também aceita encomendas.

Comunidade árabe

Dona Sônia é uma das remanescentes das famílias árabes que marcaram uma época no bairro do Pina. Um dos primeiros imigrantes foi seu pai, Abraão Gibrail, que fugiu da Síria por ser cristão e sofrer perseguição. Em Palmares, Zona da Mata Sul de Pernambuco, conheceu Ilmasa Giries, mãe de Dona Sônia.

Além das famílias Giries e Gibrail, também compuseram a história do Pina os sobrenomes Cabaz, Cabus, Nader, Haluli, Tumajan, Mucarbel, Amin, Faran, Gíries, Gibrail, Tauk, Auez, Matne, Suah, Saleme, Maaze, Nejaim, Hamad, Karam, Kouri, Ajame, Janour, Sultanum, entre outros.

De acordo com estudos feitos pela própria Sônia, fugiram de conflitos que se iniciaram em seus países logo após o fim da primeira guerra mundial e escolheram o Brasil como destino por acreditarem que a economia do continente americano estava mais estável.

“No início, o local preferido foi o Centro da Cidade, onde o comércio se concentrava. Mas a urbanização de locais mais afastados e a possibilidade de comprar moradias maiores e baratas despertaram o interesse de um grande número de famílias árabes”, conta Sônia. Foi assim que muitos deles se instalaram no Pina.

Sem a profissão, passaram a exercer a que mais sabiam: o comércio. A falta de capital impedia grandes negócios. Daí surgiram como mascates, ambulantes com baús que eram carregados nas costas semelhantes a um pequeno armário (daí o nome armarinho).

Para mascatearem, precisavam de licença da prefeitura, porém esta limitava o número de mascates. Um comércio de licenças já concedidas se desenvolveu entre árabes e recifenses. A licença era uma placa de metal com o nome do mascate, que a usava pregada no peito.

Hoje, a concentração dessas famílias já está mais diluída em outros bairros e até fora da cidade. “Os líderes das famílias foram morrendo e, ao mesmo tempo, seus filhos foram crescendo e saindo de casa, optando por outras localidades”, comenta Sônia.