Para quem mora no Pina há mais de 15 anos, o mês de agosto traz uma triste recordação. Essa parte da população se acostumou a ver palafitas sendo derrubadas pela força do mar e o sofrimento de amigos, vizinhos e familiares que acabaram desabrigados.

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Por décadas, até a construção da Orla de Brasília Teimosa, quando chegava o mês de agosto, a população já se apavorava. “Era um sentimento constante de insegurança, porém a necessidade de moradia os conduziam àquela situação”, lembra o professor Luís Sérgio Quaresma, morador de Brasília.

Ele, que sempre morou perto das palafitas, conta que a situação comovia todo o bairro e que os vizinhos surgiam de várias ruas para ajudar. “As escolas sempre se preparavam para receber os desabrigados”, recorda.

“Quando o Conselho de Moradores sabia da maré alta, já avisava pras famílias e ficava de prontidão. Quando acontecia a maré alta, os vizinhos começavam a fazer o acolhimento dessas pessoas. Teve caso de famílias receberem os desabrigados em casa, e o Conselho também recebia”, conta a moradora Celeste Valença.

Ventos e ressaca

A situação ocorria e ocorreu este ano em outro ponto do Pina. Por conta da ressaca do mar, que tradicionalmente ocorre neste período do ano, e dos fortes ventos característicos do mês de agosto.

O drama que atormentava moradores de Brasília Teimosa voltou a atingir a região, desta vez na comunidade instalada embaixo das pontes do Pina, quando seis moradias foram derrubadas pela força da maré.

Construção da Orla

Em várias medidas do poder público, foram construídas vilas no próprio bairro para abrigar moradores das palafitas. “Como a orla nunca era urbanizada, muitos vendiam suas casas e voltavam para lá, além de pessoas que vinham de outras regiões e construíam novas palafitas”, relata Luís Sérgio.

“A gente esperava sempre a recuperação do muro de contenção e a construção da orla, mas nunca acontecia e permitia que algumas famílias voltassem. Às vezes até estimuladas por algumas lideranças, que se aproveitavam disso”, comenta Celeste.

Isso só foi solucionado após a retirada definitiva das palafitas e a construção da Orla, que contou com a criação de uma avenida, de uma faixa de areia com 40 metros de largura e com a recuperação do muro de proteção sobre os arrecifes.

Antes de serem recuperados os muros, as ondas do mar chegavam às palafitas com mais de 2,5 metros de altura.