Pescadores não possuem porto certo. Existe aquele que é mais próximo do endereço fixo, é claro, mas onde o barco puder navegar, onde puder ser ancorado, é lugar de pescador. Dois dias no mar, dois na terra, até se preparar para a próxima partida, durante a maré cheia.

Vai-se quando sabe que não ficará encalhado, volta-se quando o caminho é possível, sem grandes bancos de areia. É a principal regra: não ficar encalhado. Quem tiver embarcações maiores, pode passar mais dias, mas a maioria das naus tem um tamanho razoável, mediano. Grande proa, nem metade com cobertura.

Letras do alfabeto e nomes de peixe batizando as mesmas ruas. Pode isso?

A casa dos marujos. A cada dois dias tem um “quarto” para sete pessoas. O banheiro é o mar. (foto: cortesia)

Na cabine, sete marujos dormem. Sete. Alguns têm que dividir o colchão. Poucas são as mulheres que se aventuram nessa jornada de dias. Durante a viagem, as provisões são limitadas, e o mar é o banheiro. A necessidade de sobrevivência ainda traz algumas implicações: é necessário cozinhar. Ao chegar à maré, lançam a rede, soltam a âncora do barco e preparam algo para comer.

Os alimentos são levados com antecedência. (foto: cortesia)

Há quem diga que dali pode se tirar um bom sustento, mas os vícios são inimigos de qualquer prosperidade. O que se ganha no mar se gasta na terra. Outro traço comum é a tradição familiar. Muitos abandonam os estudos para seguir o trabalho do pai. Alguns nem se lembram quando, de fato, começaram a pescar.

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Das histórias de vida durante a viagem no mar, se destaca a convivência entre amigos. Damião Ceará, 70 anos, já passou até 30 dias em alto mar. Já são 38 anos de pesca. Hoje já não desbrava tanto. Prefere pescar em terra firme acompanhado de algumas limitações.

De vez em quando, observa o mar e aguarda o retorno dos companheiros de viagem. A resistência física e a disposição foram trocadas pela experiência expressa nas marcas do rosto. A idade chegou para seu Damião, mas o olhar ainda está na pesca.

Damião Ceará (70), depois de 38 anos de pesca ainda tem no mar seu sustento. (foto: cortesia)

Pescando desde os nove anos, David Hermino, 22 anos, prefere se lançar ao mar do que trabalhar em firma. Largou a escola na quinta série, mas com o trabalho consegue ajudar a sustentar os quatro filhos, cada um de uma mãe diferente. O mais velho tem seis anos, mas ele não quer que siga a profissão.

É dessa profissão que Eron – que não quis dizer seu sobrenome –, 35, consegue sustentar sua família. Fiel, ele escreveu no seu barco “Deus tem me feito feliz”, característica que se repete em tantas outras embarcações. Afinal, é melhor sair protegido quando for enfrentar os mares.

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Ele largou os estudos na terceira série para enveredar pela carreira. Hoje tem seu próprio barco que navega ao lado dos irmãos. “Tem que ter união na pesca. Não é porque eu sou o dono do barco que vou decidir tudo sozinho”, considera.

O pai de Eron também pescava. O desejo dele era que todos os filhos estudassem.”Eu não me arrependo. Comecei a pescar com 10 anos e só estudei até a 3ª série”, conta.

Antes de sair para pescar, Eron e seus irmãos preparam as redes por quase quatro horas. (foto: cortesia)

Pontos do tesouro

Com o tempo, a família passou a usar a tecnologia para auxiliar na pesca. Hoje eles conhecem o caminho dos peixes não só pela experiência, mas pelas coordenadas registradas com afinco. “Quando você encontrar um local bom, que teve muito peixe, você marca. Esses lugares são segredos para nós, se tiver muitos barcos, não vão ter muitos peixes”, descreve.

*Esta reportagem e suas respectivas fotos foram uma colaboração dos estudantes de Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Acsa Macena, Eddie Rodrigues e Juliana Almeida.