“Se você quiser comprar um sofá, uma televisão ou um colchão, pode vir procurar no mangue, que tem”. Essa é uma das definições dadas pelo pescador Jeová Alves de Lima, de 47 anos, sobre o manguezal da Bacia do Pina. É assim que ele começa o passeio com a equipe do PorAqui pela região que recebe águas dos rios Capibaribe, Tejipió, Jordão e Pina.

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Só que o problema do estuário é que ele não recebe apenas água, mas também tudo o que vem de sólido nela. Isso sem contar que a água em si é contaminada, o que praticamente matou a população de mariscos e expulsou os peixes e outros pescados da região, com exceção do camarão, que é cultivado em viveiros de água tratada ao redor da Ilha de Deus.

“Eu vivo de camarão, mas quem vive de peixe aqui tem que ir pescar fora, lá pelo Centro da Cidade. E mesmo assim encontra muito menos do que encontrava antes”, afirma Jeová. A reclamação do pescador nasce na quantidade de lixo e esgoto vistos a olhos nus por todo o Parque dos Manguezais. “Tem muita lama, muito entulho dentro do mangue, e a gente sabe que não são as comunidades daqui que produzem esse lixo todo”.

Segundo Jeová, pescadores passam a noite catando marisco para conseguir cerca de 5 kg (foto: André Soares/PorAqui)

Durante todo o passeio, foram flagrados vários locais com acúmulo de resíduos sólidos, principalmente garrafas plásticas. Uma das queixas de Jeová é que a coleta feita pela Prefeitura do Recife é deficitária. “Eles passam, pegam seis ou sete sacos em um dia, e esse lixo continua”.

De fato, um Ecobarco da Prefeitura do Recife passou pela nossa equipe, saindo do riacho que banha a Comunidade do Bode e estava vazio e sem coletar lixo, deixando para trás resíduos, como assento de privada e sacos plásticos. A Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb) informou que a embarcação “estava se dirigindo para o ancoradouro, ao final do dia de trabalho. Como possui horário para guardar a embarcação, não pode fazer paradas no trajeto”.

Sobre a limpeza do mangue, o órgão disse que realiza ações de limpeza nos manguezais que margeiam o Rio Capibaribe na área central do Recife, mas não citou o manguezal do Pina, na Zona Sul. Já o trabalho do Ecobarco se refere à retirada de resíduos flutuantes em trechos navegáveis do Rio Capibaribe e da Bacia do Pina. Esse trabalho é feito de segunda a sábado.

Pescadores precisam ir para outras áreas do Rio Capibaribe em busca de peixe (foto: André Soares/PorAqui)

A professora de oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco Mônica Costa comenta que não há como cravar o fim da vida de animais aquáticos na região porque não existe coleta de dados de pesca no Estado. “A informação que a gente recebe é através de uma percepção dos pescadores e catadores de marisco, o que não quer dizer que é exato, mas é o dado que temos”, diz.

Ela esclarece que, se esses trabalhadores estão tendo que buscar pescados em outras regiões, é porque esses animais realmente migraram. No caso do marisco, não foi bem uma migração porque eles não se movem, mas eles vivem em ciclos e vão deixando de nascer em certos lugares para nascer em outros. Já o peixe se move e sai por aí em busca de um ambiente que tenha água que dê para ele viver.

Poluição

Sobre a poluição, Mônica aponta duas vertentes. Uma é que a bacia recebe esgoto e águas pluviais. Essas águas de chuva lavam a cidade e chegam lá e também ao estuário do Rio Capibaribe com tudo o que ela encontra no caminho, inclusive lama. A outra é a questão do lixo sólido despejado ao longo de todo o percurso dos quatro rios que abastecem a região.

“A Bacia do Pina é um grande terminal de problemas. Além do esgoto, que consome todo o oxigênio, tem problemas de assoreamento, aterro e outras coisas”, lamenta a professora.

Esgoto é a principal preocupação, porque retira o oxigênio da água (foto: André Soares/PorAqui)

“Para os animais, nesse caso, a quantidade de lixo sólido é o menor dos problemas, porque eles flutuam. A maior preocupação é a qualidade da microbiologia, que contamina os animais”, completa.

Solução

Para Mônica, a principal saída é o saneamento básico da cidade como um todo. Ela concorda com Jeová sobre a origem do lixo que hoje ocupa o manguezal. “Como cidadão, existe muito pouco o que a gente possa fazer, que é cobrar saneamento básico”, afirma.

Ela explica que a bacia inteira recebe águas de quatro pequenos rios urbanos. Então o lixo que fica ali não vem daquelas comunidades ribeirinhas. Vem de outras comunidades por onde os rios passam. “A comunidade não tem opção, ela simplesmente despeja no rio”, acrescenta.

Ela lembra ainda que há tecnologia disponível para evitar a chegada desse lixo na bacia. “Não falta tecnologia. Falta vontade política. Essa tecnologia não está implantada porque alguém ainda não quis”, comenta. Já para recuperar a qualidade dessa água, também existe possibilidade, mas exige também um custo que dificilmente vá aparecer alguém que queira arcar, defende a especialista.

“Falta vontade, e quando tiver vontade, o dinheiro aparece, porque o dinheiro a gente sabe que existe”, encerra.