Aos 74 anos, Sônia Duque Estrada, conhecida como Dona Sônia, carrega uma alegria no semblante que traz também um ar de gratidão. Ela nasceu no Pina, saiu para ganhar a vida e voltou para… continuar ganhando. Formada em Engenharia Química, ela já atuou como professora nas escolas estaduais do bairro e em universidades federais no Rio de Janeiro e na Bahia.

Hoje ela vende comida árabe congelada. Tem o kibe, esfiha aberta e fechada, homus, charuto, etc. Faz isso há 21 anos, desde que voltou do interior da Bahia após se aposentar da vida de professora.

“Nessa época, minha mãe já estava com mal de Alzheimer, e kibe era a única coisa que ela lembrava como fazia. E aquilo deixa ela ativa pela casa, ela brincava com as empregadas dela e também se divertia muito com os clientes”, comenta.

Ela aprendeu a fazer tais delícias quando criança. “Eu gostava muito e ir à praia, mas só podia ir depois que fizesse a comida com minha mãe”, lembra.

Ilmasa, mãe de Dona Sônia, era libanesa, e o marido dela, Abraão, era sírio. Ambos saíram de seus países em busca de uma vida melhor no continente americano e participaram da comunidade árabe que se formou no Recife, mais concentradamente no Pina, a partir dos anos 1920.

“Meu pai saiu da Síria fugido porque era cristão e sofria perseguição dos muçulmanos. Ele foi para os Estados Unidos, mas lá podia entrar se não tivesse problema nenhum de saúde, e o irmão dele não foi aceito nos exames. Aí eles vieram para cá”, conta.

“A minha mãe, o pai dela veio também para o Brasil e se instalou em Palmares, onde casou. Lá no Líbano, minha avó faleceu, e minha mãe teve que vir morar aqui com o pai dela. Depois de um tempo eles vieram para o Pina”, acrescenta.

E assim nasceu Dona Sônia, que foi casada e tem um filho. “Meu filho é tudo para mim. Ele é um bom filho, um bom amigo, só não é bom para ele. Eu até me emociono quando falo dele”, afirma orgulhosa a professora que viu também a vida no Pina se transformar.

“Hoje o bairro é diferente. Antigamente a nossa distração sem pagar era ir à praia. Hoje se você for tem tubarão na água e ladrão na areia”, reclama. “Não tinha essa avenida aqui (Antonio de Góes), e a gente saía pela rua, pegava fruta no pé. Essas coisas não têm mais aqui. Só violência”, lembra.

Há 21 anos, Dona Sônia vende sua comida árabe e faz questão de atender seus clientes mesmo com a presença de seus funcionários. “Aqui eu vendo bem. Pelo que lembro, aqui é o único lugar que vende comida árabe original na cidade”, diz. “Eu cuido de tudo no processo de fabricação, porque eu tenho a memória do tempero, então se eu provo e a comida não traz as lembranças da minha infância e da vida toda que eu já passei aqui, eu não aprovo”, explica.


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