A relação de Ezequiel Oluwuasola com o Recife começou há 18 anos, quando o nigeriano decidiu deixar seu país e seus familiares para tentar uma vida melhor no Brasil. Ele é conhecido dos fins de semana da Praia do Pina pelos pratos bem servidos que vende à beira-mar, às vezes com o pé na areia. 

Mas, quando o tempo não “dá praia”, o nigeriano leva a vida dando aulas de iorubá e inglês – sua formação profissional – e de cultura africana.

Os pratos de Ezequiel são verdadeiras refeições, com preços que variam de R$ 40 a R$ 70 e servem a até seis pessoas. Entre as opções, estão carne de sol, calabresa acebolada e camarão, que pode vir com ou sem casca ou até à milanesa.

Depois de concluir o Ensino Superior em Letras, o professor juntou dinheiro e escolheu a dedo a capital pernambucana, onde vive só, às vezes com a presença da filha, que é brasileira.

“Escolhi aqui por ser litoral e ter o clima igual ao do meu país, além de que está mais perto de lá. São seis horas daqui pra lá”, explica. Na cidade de Lagos, Ezequiel deixou pai, mãe e irmã. A saudade é grande, pois, desde sua partida, nunca mais os encontrou. 

“Agora com WhatsApp eu consigo falar mais com eles. Faço chamadas de vídeo. Todo dia, ligo para eles”, comenta. “Um dia eu pretendo visitar lá e levar minha filha para conhecer minha terra. Ela tem muita vontade de ir lá, e eu vou realizar esse sonho que também é meu”.

Ezequiel trabalha com ingredientes frescos e não guarda sobra para dia seguinte (foto: Geraldo Lélis/PorAqui)

“Só venho à praia aos sábados e domingos e, nesses dias, eu acordo às 5h para poder comprar os ingredientes e poder preparar tudo antes de vir”, conta. “Só uso ingrediente comprado no dia e só preparo o prato na hora que o cliente pede”, explica.

Dessa forma, quando Ezequiel vai à praia e começa a chover, como foi o caso do último domingo (7), quando conversou com o PorAqui, ele leva prejuízo se não conseguir vender tudo, pois não reaproveita na sua barraca.

No entanto, apesar de ter escolhido bem o local onde queria viver e de já estar integrado ao bairro, Ezequiel enfrentou várias dificuldades em sua adaptação e encara algumas até hoje. “No começo, eu senti muita dificuldade para me acostumar com a comida, porque no meu país a comida é feita com pimenta, e aqui se quiser comer pimenta tem que colocar depois. E não é a mesma coisa”, ensina.

“Eu sofri e, de vez em quando, ainda tenho que conviver com o preconceito por causa da minha cor. Eu não consigo entender porque as pessoas se ofendem com isso. Eu nasci assim. Não sou assim pra ofender ninguém”, desabafa.

“Uma vez, eu estava aqui na praia, e uma mulher começou a me xingar de negro safado, que eu não deveria estar no mesmo lugar que ela. Eu estava caminhando, parei e perguntei a ela o que eu tinha feito, se nem para ela eu olhei”, conta. 

“Várias pessoas filmaram e queriam que eu denunciasse, mas eu não fiquei ofendido com ela, porque eu nasci assim e no meu país todos somos assim. Eu tenho orgulho de ter essa cor”, completa.

Ezequiel circula aos sábados e domingos nas proximidades das quadras de tênis e o Primeiro Jardim de Boa Viagem entre as 12h e as 15h.


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