Meu nome é Kcal.
Sou poeta e traficante de livros!
Quando eu nasci, um anjo doido me disse:
‘Viverás no lugar errado pra fazer a coisa certa’
Cansado de esperar, vou brincando
Vice e versa

As histórias de encontrar o tesouro perdido não ficam só nos romances. Em algum dia de 1997, Ricardo Gomes, conhecido na Comunidade do Bode, Zona Sul do Recife, como Kcal, encontrou um saco cheio de livros jogado à beira da maré e se libertou da ignorância. Ele devorou Machado de Assis (o primeiro), Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade (o preferido), entre outros.

No Pina, o tráfico de livros tem sido frequente

“O primeiro livro que li foi A mão e a luva, de Machado de Assis, e fiquei maravilhado com aquele mundo da imaginação. Eu digo que aquele foi um saco mágico. Onde eu achei, só tinha lixo”, conta. Não demorou para que esse encantamento se transformasse em uma vontade de levar aquele mundo para as crianças de sua comunidade. Foi aí que ele abriu a primeira livroteca, transformando uma boca de fumo em um ponto de cultura.

“A palafita era uma boca de fumo. Até que o traficante foi assassinado, e a viúva dele quis vender a palafita”, relata. “Eu saí juntando dinheiro daqui e dali, com um e com outro para comprar o barraco. Foi 80 reais”, completa. Tinha início a Livroteca Brincante do Pina, atendendo a quatro crianças.

O projeto foi crescendo e ganhando notoriedade e precisou sair do barraco de tábua sobre o rio. Em 2008, a Prefeitura do Recife chegou a alugar uma casa de alvenaria dentro da comunidade para abrigar os livros e as brincadeiras das crianças. A partir dali, vieram outras promessas de parceria.

“Veio prefeito, ministro da Cultura, Fundarpe, mas só quem cumpriu com a promessa foi o Ministério da Cultura, mas, quando acabou a ajuda, a Livroteca precisou ser fechada”, reclama.

Batalha de MCs mirim é estímulo à leitura entre crianças do Bode

E assim a Livroteca seguiu abrindo e fechando até que Kcal e sua turma de voluntários tiveram a ideia de ocupar o prédio da extinta Associação de Moradores do Pina. “Entramos lá, só tinha as paredes. Já tinham roubado tudo de dentro, até janelas, fiação”, conta.

Durante esse percurso, Kcal visitou vários países para falar dessa experiência. Em uma de suas viagens, conheceu a banda Faith no More, que o chamou para abrir seu show em um festival em São Paulo.

Livroteca Brincante leva crianças do Bode para além das leituras

Hoje a Livroteca tem uma função maior do que levar a leitura para as crianças carentes do bairro. É um ponto de convergência de cultura e cidadania.

Com a participação de voluntários, o prédio da antiga Associação de Moradores abriga as atividades também do Palafiti, que desenvolve grafite e outras artes visuais, além de artesanato; da Juventude do Pina, uma articulação política para lutar pelas questões do bairro; do grupo de arte urbana Pão e Tinta; e de vários grupos de cultura hip hop, como Marolas Crew e Sem Lote.

Para 2018, a Livroteca terá dois projetos que serão financiados por editais de cultura. Um deles é o CineBode Expiatório, que promove sessões de cinema sobre as temáticas social e ambiental para a comunidade. O outro é o projeto Quintais Verdes, que vai estimular e criar hortas comunitárias.