Bastou chegar ao hotel em Boa Viagem, onde aguardou a hora do show que fez no Teatro RioMar, no Pina, que Caetano Veloso se deparou com uma realidade da rotina da Zona Sul. Logo veio à memória o filme O Som ao Redor, do cineasta recifense Kleber Mendonça Filho. A parte boa tanto para a memória de Caetano quanto para quem mora no Recife é que o cantor reconheceu que há uma cidade de verdade em algum lugar que não é aquele.

De sua janela, ele se deparou com o isolamento pessoal retratado por Kleber Mendonça no reconhecido filme. No vídeo de Caetano, podemos ouvir o barulho da rua acompanhado do silêncio das pessoas, denunciando a falta de interatividade provocada pelos altos muros e ruas vazias.

Os prédios só chegaram depois, mas Boa Viagem existe desde o século XVIII

Isso num bairro em que, quando há gente na rua, elas estão apressadas e prontas para entrar na primeira porta aberta caso percebam que estão sendo seguidas. O tipo de moradia que aprisiona as famílias em um mundo a parte da cidade transformou Boa Viagem em um bairro para ser vivido dentro do carro ou da sala do apartamento (com o tempo, a sala foi substituída pelo quarto, mas isso é uma questão da “evolução” das pessoas mesmo).

Quem circula por Boa Viagem hoje sem pegar um transitozinho sequer na Domingos Ferreira ou na Conselheiro Aguiar (citando essas que são os maiores corredores de comércio do bairro)? E ao chegar à loja, pra estacionar? O medo (ou destreino) de pisar na rua é tanto que tem gente que estaciona onde não pode, e aí voltamos para a falta de interação pessoal.

Esse isolamento tornou as pessoas ainda mais individualistas, que não pensam no coletivo, resultando em fechamento de passagem de pedestre, de cruzamentos. Não se abre mais passagem para quem está mais apressado e não se tem mais tolerância com quem está mais devagar pelo motivo que seja.

Ah, ao fim do show, Caetano encontrou com Kleber Mendonça e com parte da equipe do filme Aquarius, inclusive com Sônia Braga.