Comunidade organizada que era desde seus primeiros dias, Brasília Teimosa sempre teve seus pernosagens típicos de um povo brigador. Já falamos sobre o líder religioso que arregaçou as mangas, que foi Padre Jaime, e agora o nome da vez é Ricardo Brindeiro.

Nascido no Ibura e arquiteto de formação, Brindeiro foi uma das figuras mais importantes na aglutinação dos moradores de Brasília Teimosa nas lutas para manter a ocupação e nas pressões para urbanização do bairro.

A jornalista Camila Souza relatou em seu livro Teimosa Senhora: histórias do Areal Novo a Brasília Teimosa atual, relata a forma que Brindeiro atuou. Segundo a obra, ele chegou justamente quando o Conselho de Moradores fervia nas reivindicações.

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Considerado um animador popular, ele não saía de casa sem o violão, que era usado para acompanhar as canções durante as passeatas. Tocando e cantando pelas ruas do bairro, ele convocava os moradores, compondo e parodiando músicas denunciavam os problemas do bairro.

“De repente, se ouvia o som de um violão e um homem cantando: ‘daqui não saio daqui ninguém me tira’. A gente corria para acompanhar porque já sabia que era Ricardo convocando todo mundo para uma reunião no conselho”, conta a moradora Zezé Rodrigues ao livro de Camila Souza.

Brindeiro compunha músicas e parodiava outras para convocar moradores rua por rua (foto: reprodução/Facebook)

Uma dessas músicas se tornou o hino de Brasília Teimosa:

Cuidado com os tubarões
Que querem, por qualquer tostão,
Tirar a gente
Mas ninguém vai sair, não

Vamos lutar!

É fome, é desnutrição,
Chega de exploração
Brasília é nossa, ninguém vai botar a mão.

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Uma dessas passeatas foi para derrubar um muro construído pelo Iate Clube do Recife, isolando a praia do Buraco da Velha, nos anos 1980. Entoando a música “Ninguém vai botar a mão no Buraco da Velha”, ele passou de rua em rua, chamando os moradores para recuperar a praia do bairro.

Entre as lutas encabeçadas por Brindeiro, foi a retirada das palafitas da beira-mar, o que chegou a acontecer e foi criada a Vila Teimosinho, mas a urbanização da orla não foi concluída e novas famílias ocuparam a faixa de areia com as casas de tábua chegando a cobrir a praia.

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Além das palafitas, outras ações foram os projetos da Vila Teimosinho e Teimosia Verde, que plantava uma árvore em cada casa. A passagem de Brindeiro por Brasília teve um intervalo, quando ele concluiu o curso de Teologia da Libertação e foi morar numa comunidade ecumênica na Bahia e teve fim em 1991, quando Brindeiro e sua esposa Ana Gusmão se mudaram para João Pessoa e realizaram trabalho semelhante num bairro chamado Alto do Mateus.

Ricardo Brindeiro faleceu em dezembro de 2013 depois de lutar contra um câncer de pulmão. Mais detalhes da história deste personagem podem ser conferidos no livro Teimosa Senhora: histórias do Areal Novo a Brasília Teimosa atual, de Camila Souza.