“Após as 20h está sendo promovido um toque de recolher e esse clima de nada combina com a alegria e a beleza do carnaval”, disse Gustavo Dantas, morador da Cidade Alta. Em Olinda, uma das marcas das prévias carnavalescas 2017/2018 tem sido o mecanismo de dispersão de pessoas montado pela Companhia Independente de Apoio ao Turista (Ciatur), da Polícia Militar.

Batizada pelos moradores e visitantes do entorno como “toque de recolher”, tal estratégia tem sido presenciada nas ladeiras da cidade desde setembro de 2017, quando as prévias carnavalescas por aqui começaram a esquentar de fato. Segundo foliões, o principal alvo da polícia são os jovens que circulam em grupos.

Moradores alertam para a escassez de água em Olinda

“Desconheço o toque de recolher, qualquer evento em Olinda precisa passar por um processo de regularização na SEPAC (Secretaria de Patrimônio e Cultura) e assim é estipulado um horário, o que nos permite escalar o nosso policiamento. Acabado o evento, as pessoas querem voltar pra casa em paz”, explica o major Giovani Nascimento, que está à frente da Ciatur desde 01 de fevereiro de 2017.

A Ciatur é responsável pela segurança na Cidade Alta. Foto: Reprodução/Instagram

O fenômeno tem dividido opiniões de alguns moradores e visitantes, pois mesmo que não concordem 100% com a ação, muitos a elogia e se sentem mais seguros em relação às prévias passadas (2016/2017), que foram marcadas pelos arrastões, brigas e o descontrole da situação por parte da gestão pública.

Segundo o major, tais problemas foram solucionados assim que assumiu a corporação. “Nós mudamos o planejamento sobre as prévias e o carnaval. Fizemos um trabalho de inteligência neutralizando jovens oriundos das comunidades que marcavam de brigar na Cidade Alta. Além disso, estamos fazendo abordagem pessoal nas ladeiras. É assim que sabemos fazer polícia”, explica.

O famoso “baculejo” já virou paisagem visual das prévias este ano e também tem deixado alguns moradores e visitantes incomodados. “No mês de novembro, meu filho de 15 anos, negro, foi separado dos colegas brancos por dois policiais que perguntavam onde estava a droga e subtraíram 20 reais que ele tinha no bolso”, conta V.P., moradora do bairro de Jardim Atlântico.

Eugênia se sente mais segura, mas repudia abordagem policial violenta. Foto: Reprodução/Facebook

Segundo a moradora Eugênia Lima, aplaudir ações que venham a violar pessoas em troca de um pouco de paz é uma distorção do que se entende por segurança pública. “Eu acho uma absurdo, mas alguns moradores estão elogiando tais ações. Assim você está legitimando a violência, que em alguns casos, está vindo da polícia”, explica.

Perguntado sobre os riscos de alguns foliões serem alvos de injustiças nas abordagens, o major Giovani Nascimento foi taxativo. “Quem se sentir lesado ou passar por alguma situação indelicada é preciso nos procurar para que possamos analisar o caso e, se necessário, tomar as medidas cabíveis”, esclarece.

A gente não quer só polícia

Madalena Rodrigues não vê com bons olhos a atual gestão municipal. Foto: Reprodução/Facebook

Para Madalena Rodrigues, moradora do bairro de Rio Doce (Olinda), a questão policial é apenas a consequência de um problema estrutural. “Observando um domingo de prévia, a gente faz um raio-x da gestão municipal. Fica evidente a ausência de políticas sociais nas periferias, principalmente de lazer”, explica.

Segundo Madalena, a estrada tem tudo para ser longa e melhoramentos na infraestrutura de iluminação não são suficientes. “Enquanto a gente comemorar a colocação de luz branca nas ladeiras históricas de uma cidade que é patrimônio cultural da humanidade, vamos ter muito o que caminhar”, alerta.

“Deixar que a polícia resolva tudo é mesmo que enxugar gelo. É desumano com os próprios policiais”, reflete Eugênia Lima. A imagem de Olinda como uma cidade “que pode tudo” atrapalha. “É preciso trabalhar uma política educacional para o carnaval, o ano todo, nas escolas e comunidades. Promover pólos descentralizados nos bairros, ocupar os jovens com diversão”.

Djair Falcão chama atenção para o ócio da juventude que frequenta as prévias. Foto: Reprodução/Facebook

A falta de uma programação consistente aliada ao ócio dos jovens são fatores problemáticos. “Visitei Olinda domingo com minha filha e senti dificuldades de encontrar o carnaval. O que vi foram muitos jovens sem ter o que fazer, focados em consumir álcool como se fosse o último dia da vida. É muita gente sem saber para onde ir”, conta Djair Falcão, morador de Aldeia (Recife).

A falta de planejamento do ano todo termina por prejudicar as manifestações culturais no momento em que elas mais precisam. “No último domingo eu tava esperando o Menino da Tarde passar e pelo que soube o bloco teve que ser cancelado pela polícia por medida de segurança”, conta a visitante Yasmim Dyndara, moradora do Cajueiro (Recife).

É claro que o mercado do turismo termina sendo afetado. “Sentimos na pele esse efeito, temos clientes que vêm com interesse de sentir o gostinho do carnaval, mas o sentimento de insegurança criado faz com que as pessoas fujam das prévias. Final de ano e mês de janeiro é um período difícil para a rede hoteleira e restaurantes de Olinda”, explica Victor Castelo Branco, empresário e morador da Cidade Alta.

Companhia Independente de Apoio ao Turista (Ciatur)
(81) 3181-1718 (Unidade Ribeira)
(81) 3181-3703 (Unidade Carmo)