“A arquidiocese da Igreja tomou a chave há dois anos e os pretos estão proibidos de entrar no próprio templo”, explica o arqueólogo e historiador Plínio Victor.

A intervenção administrativa da Arquidiocese de Olinda e Recife citada pelo pesquisador aconteceu em igrejas que fazem parte da Região Metropolitana do Recife (RMR), mas no caso da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Bonsucesso, em Olinda, a questão étnica é um capítulo a parte.

A Igreja de N. S. do Rosário dos Homens Pretos foi construída pelos escravos no ano de 1621. No templo eram realizadas festas, conhecidas como congada, que tinham o objetivo de salvaguardar a religiosidade africana. Nos anos toda a história e tradição ancestral vem sendo desrespeitada.

Nações de Maracatu e comunidade do entorno eram recebidas de portas abertas. Foto: André Soares/PorAqui

Em 2017, pela primeira vez na história da tradicional Noite Para os Tambores Silenciosos, a Igreja não abriu as portas para receber o evento, o que não condiz com a prática dos anos anteriores, em que a igreja abraçava e acolhia as Nações de Maracatu.

Segundo Cecilia Canuto, uma das organizadoras da Noite e integrante da Confraria de Nossa senhora do Rosário dos Homens Pretos de Olinda, o evento em 2018 contou com a mobilização da comunidade para atenuar o que muitos consideram um caso de segregação racial. “Foi preciso uma articulação comunitária através de um ofício para que pelo menos as portas da Igreja estivessem abertas”, explica.

Hoje em dia para ter acesso às dependências e utilizar o espaço da Igreja é preciso que a comunidade católica negra peça permissão para entrar, o que parece ser um contrassenso histórico. “No primeiro ano do evento convidamos outras associações religiosas, a comunidade podia entrar e sair, a Igreja era aberta”, relembra Cecilia.

Reintegração de posse

Cecilia Canuto. Foto: Encontro de irmandades negras católicas, outubro, 2017 – Salvador. Igreja de Nossa Senhora do Rosário – Bahia.

Situada em uma casa anexa à igreja, a Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Olinda, representada por uma tradicional família da cidade, a família Canuto, que faz parte do núcleo ancestral dos irmãos da Confraria desde o século XIX, hoje é alvo de um processo de reintegração de posse por parte da Arquidiocese.

Para Cecilia Canuto, integrante da família, esse tipo de investida viola o estatuto da Confraria que teve o seu compromisso em vigor em 1786, confirmado com alvará de Dona Maria I – Rainha de Portugal, que concebe à Irmandade a categoria de Confraria e a autonomia sobre bens e rendas.

“Esta ação vai de desencontro com os próprios direcionamentos do Papa, nossa maior autoridade que tenta incentivar nas comunidades esse fortalecimento religioso e de manutenção da igreja católica”, explica Cecilia.

Em 2005, a Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Olinda foi registrada no livro do Conselho de Preservação dos Sítios Históricos de Olinda e reconhecida pelo município como Patrimônio Imaterial da cidade.

[errata] No vídeo a palavra “santuário” é utilizada indevidamente como sinônimo de igreja.

* Matéria produzida em parceria com André Soares e colaboração de Igor Marques.