Pelas ruas e vielas do Recife e RMR, os meninos se divertiam livremente durante o reinado de Momo, com suas bombas de cano de PVC, cabo de vassoura e restos de sandálias japonesas (que, à  época, não tinham o glamour de agora).

A pressão era total. Molhar a quem passava na rua era o desafio maior e fugir das suas investidas uma luta maior ainda, posto que a água poderia vir de qualquer fonte e ser de toda qualidade (ou sem nenhuma): bacia de alumínio, postada embaixo da torneira, poças de lama, água que escorria pelo meio fio das calçadas…

 

As meninas se contentavam com suas bombas, também chamadas de esguichos ou ‘xiringas’ de plástico, coloridas. Naquele tempo, não ouvíamos falar em falta de água e, mesmo nos bairros mais pobres, as torneiras eram sempre abastecidas.

Folclore e tradição no Carnaval de rua do Recife

Havia a ‘laussa’, assim mesmo, no linguajar daqueles pequenos brincantes, que só quando adultos aprendiam a chamar de La Ursa e conheciam a sua história.

Bastava um saco de açúcar em náilon ou um pano de estopa, uma máscara de papel, uma corda amarrada à cintura e estava feita a fantasia.

E aquela pequena troça infantil saía pelas ruas, acompanhada de sua orquestra de latas de leite, de goiabada, e um pedaço qualquer de madeira ou martelo de plástico como baqueta, entoando: ♫a laussa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro…♫

E ai de quem não desse! Tinha que suportar a meninada à porta, a repetir o bordão: “É pirangueiro! É pirangueiro! É pirangueiro!”.

E quem não se lembra da burrinha e o seu cavaleiro com o chicote? Eu morria de medo de levar uma carreira dela e uma surra do seu chicote, mesmo sabendo que ali, por debaixo daquele pano de chita, havia apenas um moleque igual a mim, montado num cabo de vassoura, com rabo de espanador.

Quem nunca usou uma dentadura de vampiro? De tão mal feita, mal cabia na boca e não nos dava a chance de falar com destreza. E quem se importava? Eram brancas, baratas, vendidas em qualquer tabuleiro de feira e era o suficiente para assustar.

E as máscaras de papel? Quem não tinha dinheiro para comprar as mais elaboradas, contava os trocados e corria ao armarinho do bairro para comprar cartolina, lantejoulas, cola branca e elástico. Ficavam lindas!

Os recursos eram poucos, pelo menos os meus, mas não faltavam confetes, serpentinas, colares de ráfia, saias havaianas em tiras de náilon, muitas estrelinhas coloridas, coladas à pele, para brilhar nas brincadeiras de rua, nos misturando às agremiações dos bairros, acompanhando os desfilhes na Dantas Barreto, com nossos pais ou adultos responsáveis… sem medo do Papa-figo, do Homem do Amorim, lendas que nestas ocasiões descansavam para dar lugar aos monstros carnavalescos que desfilavam em nossa imaginação.

A meninada de hoje se diverte, mas jamais saberá o que é ter que ser criativo para preparar, com pouquíssimos e raríssimos recursos, seus próprios instrumentos, suas simplórias fantasias e reproduzir a alegria naqueles quatro dias do reino momesco da fantasia.