Talvez não houvesse cenário melhor para um bloco feminista fazer o ensaio fotográfico do que o Jardim do Baobá, nas Graças, Zona Norte do Recife. Com 16 metros de circunferência, seu tronco convida para um abraço, assim como a causa defendida pelas meninas do Essa Fada (para ler com e sem trocadilho), bloco recifense que surgiu em 2015 e chega ao quarto Carnaval desfilando maturidade – sem dispensar o brilho.

O PorAqui esteve na última quinta (18) com elas, que escolheram o Jardim do Baobá para as fotos oficiais do bloco, a cargo da fotógrafa Priscilla Buhr. Neste ano, todas as funções da organização da prévia do Essa Fada são ocupadas por mulheres.

“Vamos fazer uma festa só comandada por mulheres, a organização, as atrações, o estandarte foi mulher que fez”, diz Joana Aquino, uma das dez diretoras que comandam o bloco.

A conversa gira em torno da evolução diante da causa feminista que o bloco vem se impondo ano após ano.  Desde 2015, quando surgiu, as meninas já entraram na brincadeira do Pó de Sim, uma versão, digamos, emponderada do pó de pirlimpimpim dos contos infantis, e uma oportunidade para meter glitter na história!

A ideia era ir pros Barba. “Vai ter mullher nos Barba, sim!”, relembra Renata Sá Carneiro, também da equipe de organizadoras.

Evolução

“A gente foi dando umas evoluídas. Primeiro era a liberação sexual feminina, ‘Essa Fada'”, fala Joana, dando ênfase às três últimas sílabas. “A mulher pode e não tem que dar satisfação. No segundo ano, a gente foi entendendo um pouco mais o protagonismo da história.”

“O nome era ‘Grêmio Anárquico Feminazi Essa Fada’. A gente tirava essa onda, que era uma palavra da época”, fala Renata. E olhe que estamos falando de 2015 e tanta coisa mudou quando se trata de feminismo. Ainda bem!

Em 2017, elas trocaram o polêmico “feminazi” pelo neologismo “feminístico”. Nos primeiros anos, tinha até homens vestidos de mulher, que acabavam roubando a cena e não tinha muito a ver com o discurso de empoderamento.

“Depois a gente reviu e decidimos levar mais a sério, mais de acordo com o feminismo. Vamos agora pro protagonismo feminino, que não é só a liberação feminina, sexual”, pontua Joana.

2017 também foi o ano em que elas começaram a dialogar mais com o público, através das redes sociais e não só durante o Carnaval.

A gente mudou não só o ‘feminazi’, mas a nossa logo era uma fadinha pendurada numa ‘piroca’ de Brennand, como se fosse a varinha mágica”, diz Renata. “Até isso a gente mudou, que tem mulher que não gosta disso aí. Depois tivemos a fadinha brincando com a varinha dela sozinha. Ano passado fizemos ela negra, pela diversidade racial”, emenda Joana Aquino.

Este ano, o destaque é para o próprio Pó de Sim, que pode ser comprado a R$ 10, enquanto a camiseta sai por R$ 30, tudo revertido para a festa do dia 7 de fevereiro, na Casa Astral, Poço da Panela, na Zona Norte do Recife.

Vai dar pra comprar tudo a partir de segunda (22), na Etiqueta Verde. Também estará à venda a saia de fada, por R$ 55.

Reflexões

“A mulher no Carnaval sempre foi um tabu. Aqui em Pernambuco, sempre teve essa coisa do beijo forçado e casos piores de violência, de estupro. O poder público tem lançado algumas campanhas, mas é preciso que essa voz aumente, que seja um coro, como há outros blocos feministas. A gente quer se juntar a esse todo”, revela Renata.

Para este ano, vão entrar forte com o discurso de Pó de Sim, mas o Não é Não. “A gente fez a parceria com o projeto Não é Não e, durante o bloco, a gente vai distribuir as tatuagens do ‘não é não'”, avisa Geisa Agrício.

Mas é no período da Folia de Momo (será que não tem um nome melhorzinho para usar como sinônimo de Carnaval, não?) que o grupo mostra a sua força. “O Carnaval é o apitaço mesmo”, avisa Renata. Então anota aí: dia 7 de fevereiro, a partir das 17h, na Casa Astral, no Poço da Panela, tem prévia do Essa Fada, com muito frevo, glitter e DJs mulheres, claro. Grátis!

Evento no Facebook: Essa Fada 2018