O “banco 24h” é uma daquelas entidades míticas que povoam o imaginário do habitante da Região Metropolitana do Recife. Junto com as calçadas, eles adornam o panteão das coisas tidas como substantivo concreto onírico.

Parecem, ainda, serem dotados de um certo aspecto mágico, pois, tal qual um banheiro decente para “obrar”, eles desaparecem assim que nos damos conta de sua necessidade.

Deixem-me contar uma pequena história, ocorrida há alguns bons anos, sobre a saga para encontrar um “vinte quatro horas” durante o carnaval. Lá vai.

O guia dos principais blocos do Carnaval de Olinda 2018

Domingo, calor do carai, gente que só a p. e a doideira comendo no centro. Alucinado e alucinante, cheio de sede e com a barriga lotada de nada, sinto que vou desmaiar.

Se estivesse ouvindo umas sirenes, era nenhuma, mas não foi o caso. A glicose baixou mais do que o nível das músicas que eu estava dançando. Sabia que, se continuasse forçando meu corpo naquele ritmo, além de ficar muito sensual, iria comprometer a segunda.

“F.-se, preciso comer algo e tomar uma coca”. Para a minha surpresa, todo o meu dinheiro tinha ficado pelo MAC. “Calma, só preciso achar um 24h e sacar 50 conto.” Sem avisar a ninguém, peguei a Henrique Dias em direção ao posto do Varadouro, certo de que resolveria dois problemas num só golpe, visto que a larica seria devorada por lá mesmo.

Óbvio (agora, né? Porque, na hora, não parecia) que o posto estava fechado. “Tudo bem. Onde mais eu poderia encontrar um caixa eletrônico?”. Munido de uma determinação que eu não possuo no resto do ano, caminhei de volta ao início da ladeira da Prefeitura e fui direto a um cidadão que aparentava estar com as faculdades mentais em dia.

Eu: – Meu senhor, boa tarde. Banco 24h aqui perto, tem?

Meu senhor: – Tem, meu filho!

Eu: – Onde?

Meu senhor: – Lá no posto do Varadouro.

¬¬

Eu: – Eita! Está fechado. Estou voltando de lá. Tem outro?

Meu senhor: – Rapaz, é pra sacar dinheiro?

“Não, é pra tirar foto 3×4 instantânea.”

Eu: – Sim.

Meu senhor: – Sei não.

Você sofre de ‘escolhiose’?

O diálogo acima foi travado por mais uma 650 vezes, em pontos diversos da Cidade Alta, como Bonsucesso, Carmo, Bonfim e Amaro Branco. Em todos, a mesma ladainha: “Lá no Varadouro tem não?”.

No fim das contas, um conhecido, que será canonizado assim que morrer, me viu desnorteado e aflito no meio da multidão, chegou em mim e disse:

– Tá doidão é, cara?

Não. Estava tendo um delírio em que o Banco 24h era uma espécie de graal e eu, um cavaleiro solitário, faminto e desesperado buscando incessantemente.

Sim, rolou um rango, uma coquinha e até um cochilo. Por isso, para não passar esse perrengue, não caia no conto do “ tem um banco 24 horas ali…”.

Um cheiro!

 

Daniel Barros é recifense, formado em Letras pela UFPE. Atualmente mora no Derby, mas é cria da CDU. Come e bebe em demasia. Já tomou muita cerveja no Mercado da Encruzilhada.  Nos intervalos, anda de ônibus. Nesta vida, veio a passeio, mas ficou preso em Abreu e Lima. É conteudista colaborador do PorAqui para desperdiçar seu tempo.

 

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