Antiguidade é posto! Há 42 anos – ou seja: mais velho que o Galo da Madrugada – gozando a vida e o carnaval como ninguém, a Troça Carnavalesca Independente Bloco Nóis Sofre… mas Nóis Goza, nascida em plena Folia de Momo , vem levando a tal “irreverência do folião pernambucano” a sério (ou no deboche!)

E neste sábado (10) tem desfile. A concentração será a partir das 12h, no bairro da Boa Vista, mais precisamente na Rua Sete de Setembro, na altura do número 329, endereço onde funcionava a antiga Livro 7. Foi lá que toda a história começou, contada pelo livreiro Tarcísio Pereira, nome à frente do Nóis Sofre.

Era carnaval de 1976, quando um grupo de intelectuais e artistas tomava cerveja no Bar 7 (cervejaria ligada ao complexo cultural da Livro 7). Eles queriam, de alguma forma, brincar seu carnaval. “Pegaram, então, uma toalha de mesa do bar, me pediram uma vassoura e saíram usando aquilo como se fosse um estandarte”, lembra Tarcisio.

Foram brincando até a Av. Guararapes, até que encontraram com um troça no caminho. E eis que um folião, sozinho e bêbado, dormindo em uma mesa de bar, ao sentir a chegada da troça, de súbito, acordou e arrematou, espontaneamente: “Eu vou nessa, porque ‘nóis sofre, mas nóis goza’!”. A frase relevadora foi usada para batizar a nova troça.

(Foto: arquivo pessoal)

O grupo voltou ao Bar 7. Lá, fez o batismo “oficial” do Nóis Sofre e, entregando o estandarte a Tarcisio, lhe deu a missão de tocar a Troça. E assim vem sendo desde então. Nos anos seguintes, já foram providenciadas orquestra, uma passarela e um palanque para desfile e concurso de fantasias, e para os foliões botarem a boca no trombone com tiradas debochadas e críticas ao cenário político brasileiro.

Esta é uma marca essencial do Nóis Sofre. Nascido em plena ditadura militar, o carnaval foi uma forma de poder externar o descontentamento com a realidade brasileira, mas sempre de forma irreverente. “O Nóis Sofre acabou sendo também uma ferramenta crítica, e o carnaval era utilizado pra fazer de conta que era uma brincadeira”, lembra Tarcísio. O próprio nome traz essa mensagem, essa “alfinetada”.

Maior que o Galo

“Do início, a vibração era grande e todo mundo, naturalmente, tinha mais preparo físico. A gente ia até o Pátio de São Pedro. De lá, num ônibus que eu alugava, íamos pra Olinda. E ficávamos por lá até umas 22h”, conta Tarcísio sobre o percurso dos idos tempos do Nóis Sofre, que, com os anos, e com a idade do pessoal, foi, gradativamente, diminuindo.

(Foto: arquivo pessoal)

Agora, é assim: concentração a partir do meio-dia, na Sete de Setembro. Por volta das 15h, sai pelas ruas do Riachuelo, da União e, na sequência, retorna até onde começou, fazendo o sentido inverso. A farra deve ir até umas 18h. É pequeno o percurso? Para quem já foi uma troça intermunicipal, talvez, sim.

Dos tempos de outrora, o público cativo e a verve ácida ainda continuam firmes e fortes! Com um público estimado de 4mil a 5 mil pessoas anualmente, é hoje bem maior do que quando começou. Confrontado com a informação de que o “Nóis Sofre já foi maior que o Galo”, Tarcísio pondera. “Naturalmente, no início do Galo era apenas Gustavo Krause e uma turminha, e surgiu dois anos depois da gente”.

Tarcísio Pereira (esq) é o nome à frente do Nóis Sofre… o desenho deste ano (dir) foi criado pelo cartunista Lailson de Holanda (Foto: Reprodução)

O tema deste ano são “os ratos da política brasileira”, conta Tarcísio. “Nós escolhemos sempre faltando poucos dias porque sempre queremos algum fato que seja quente”, diz. O tema ganha desenho na camisa oficial de cada ano, desenhada pelo cartunista Lailson de Holanda, que abraçou este missão desde os anos 1980, ininterruptamente.

As camisas estão à venda, por R$ 25, no restaurante Confraria do Poeta e no Cascatinha Lanches.

Nóis Sofre, mas Nóis Goza
Sábado (10), com concentração a partir das 12h
Rua Sete de Setembro, 329 – Boa Vista