Do Forte de Cinco Pontas à Praça Sérgio Loreto; do Mercado de São José à Basílica do Carmo. A região “ocupada” pelo desfile do Clube de Máscaras Galo da Madrugada tem história e memória ainda viva do Recife e dos seus Carnavais saudosos.

Ali, no Bairro de São José, onde os Batutas parecem que têm feitiço, casarões têm impressas nas suas paredes, janelas e sacadas a história da cidade.

Antigo colégio Sérgio Loreto segue abandonado no caminho do Galo

Um giro pelas ruelas ou mesmo pela Avenida Dantas Barreto, aberta às custas de demolições de construções seculares, é possível se encantar com sobrados de dois, três e quatro pisos.

A grande maioria está deteriorada e parcialmente ocupada. Geralmente apenas os térreos têm “utilidade”. Abrigam estabelecimentos comerciais.

Desprezados e considerados sinônimo de problemas, sofrem com descaraterizações feitas em nome de adequação aos novos tempos e formas de ocupação.

De todo modo, ainda há beleza e traços que documentam a arquitetura produzida na cidade em séculos passados. São exemplares de como se morava no Brasil antes da República.

Antes que Suma: Pátio do Terço é cenário da Noite dos Tambores Silenciosos

Já falamos no Antes que Suma, mas é sempre bom reafirmar: o abandono do casario de São José, Santo Antônio, Afogados, Boa Vista, Soledade, Santo Amaro e outras áreas centrais é consequência do crescimento da cidade para outras regiões, fato que provocou a migração do comércio e do foco de “desenvolvimento” para outros bairros.

Ocupar e preservar

Mas não é só isso. A inexistência de iniciativas e de uma cultura que valorize a reocupação do centro, com preservação e aproveitamento de casas e prédios antigos, condena as construções-memória à ruína ou à demolição.

Em outras cidades do mundo com características e patrimônio arquitetônico similares aos do Recife, centros foram reativados, reocupados, associando-se moradia, comércio e serviços.

Aqui, fecha-se os olhos à preservação e abre-se o caminho para construtoras sempre ávidas por erguer torres totalmente desconectadas da identidade e da memória da cidade.

Algumas até assumem o discurso de valorização de espaços urbanos, mas a filosofia e o proceder das empresas do setor são bem distanciados do conceito de humanização das cidades e da manutenção de patrimônio arquitetônico-histórico.

O poder público, como se sabe, tem interesses bem particulares e é expert em fechar parcerias nem sempre transparentes e saudáveis para a cidade.

Em suma: se há desinteresse dos proprietários em preservar e procurar soluções para uma reocupação lucrativa, há um total descaso dos que detêm o poder político em buscar saídas.

Portanto, os casarões mostrados aqui são elementos de resistência à política de desvalorização, sucateamento e precarização do centro.

Levante os olhos

Quando tiver percorrendo ruas do comércio do vuco-vuco em busca de fantasias ou mesmo seguindo blocos, maracatus e escolas de samba pelo Bairro de São José, levante os olhos.

Você vai descobrir belezas em adornos, platibandas, sacadas, janelas e portas. Passamos pelas ruas Vinte e Quatro de Maio (onde ficava a sede da Sociedade de Monte Pio Popular Pernambucano), da Palma, do Peixoto, do Rangel, do Porão, da Praia e Avenida Dantas Barreto.

Para reforçar a relação do bairro com a folia de momo, vale reproduzir trecho de publicação do bloco do Professor Biu Vicente:

O Carnaval do Recife tem muitas de suas tradições ligadas ao bairro. Além dos blocos Batutas de São José, Donzelos, Traquinas de São José, Prato Misterioso, Pão Duro, entre outros, foi sede de importantes clubes carnavalescos como o Clube das Pás Douradas, dos Vasculhadores e do Clube Vassourinhas, apelidado carinhosamente de “Camelo de São José”, além da escola de samba Estudantes de São José, que como o nome diz, foi criada pelos estudantes da vizinhança.

Os ensaios de rua dessas agremiações, antes do carnaval, levavam multidões às ruas do bairro, dançando o frevo e cantando as músicas da época na maior animação. É do bairro também que sai, desde 1977, no sábado de Zé Pereira “o maior bloco carnavalesco do mundo”, O Galo da Madrugada, anunciando a chegada de Momo”.

Saiba mais sobre o Bairro de São José AQUI (Fundação Joaquim Nabuco) e AQUI (Blog Professor Biu Vicente).

De suas andanças pelas ruas do Recife, o jornalista Josué Nogueira criou o site Antes que Suma: uma forma de documentar o patrimônio arquitetônico e afetivo da cidade. Parte do conteúdo do site também é disponibilizado PorAqui.