É muito provável que você nunca tenha ouvido falar nele, todavia o clube carnavalesco mais antigo da cidade, em setembro do ano passado, completou “somente” 111 anos de existência. Há cinco anos sem desfilar nas ruas de Olinda, 2018 parece ser o ano da retomada do Clube Carnavalesco Misto Lenhadores Olindenses.

Fundado em 1907 por pescadores do Amaro Branco e atravessando dificuldades de ordem financeira há muito tempo, o pulso dos Lenhadores ainda pulsa, mas a impressão que se dá quando observamos mais de perto, é de que o clube tem resistido a tudo isso em silêncio, como se gritando contra o travesseiro. 

Em uma manhã de quarta-feira envio um “zap” para Marujo, atual presidente do clube, com a esperança de ser respondido sem precisar gastar meus créditos. Prestativo, me responde “pero áudio” de forma bem objetiva. “Bom dia amigo, pode passar aqui na peixaria que eu dou um pulo lá no Lenhadores com você”.

Marujo, presidente do Lenhadores, é dono de uma peixaria no bairro do Carmo. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

Cria do Amaro Branco, Manoel Amadeu da Silva Figueiredo (54) é dono de uma peixaria no bairro do Carmo e ganhou o apelido por conta dos 1.564 dias de mar e por volta de 50 países visitados como Sargento da Marinha, exercendo a função de cozinheiro.

Aposentado das águas há mais de dez anos, retornou à terra firme e ao bairro de origem no início dos anos 00 e se deparou com o desencanto. “Quando eu cheguei aqui vi o clube praticamente fechado”, relembra. Fruto de uma má administração, somada à falta de honradez da gestão pública, o Clube Carnavalesco Misto Lenhadores Olindenses foi impelido ao ostracismo.

O passado (quase) recente do clube traz boas lembranças para a comunidade. “No Carnaval de 1992 os Lenhadores saíram com 120 passistas, carros alegóricos, fantasias lindas”, conta Roberto Lobler, morador da vizinhança que já trabalhou como voluntário na agremiação.

De lá pra cá a realidade do clube mudou e foi ficando cada vez mais obscura, a ponto de se tornar invisível a alguns foliões mais novos que chegam ao absurdo já naturalizado de simplesmente desconhecer a sua existência. 

O marujo assume a proa

Apaixonado pelo clube, Marujo está otimista e acredita em um futuro melhor. Foto: Rodrigo Édipo

“Pode entrar”, diz Marujo abrindo as portas da sede, um lugarejo simpático pintado de verde e rosa e com boas vibrações. No ano de 2013 ele decidiu assumir a proa do clube e – literalmente – vem tirando do bolso a sobrevida da agremiação.

Responsável por uma reforma que chegou até a melhorar a acessibilidade de cadeirantes aos espaços internos da sede, a história de Marujo se confunde com a do clube. “Desde pequeno eu vinha brincar com meus amigos aqui no meio da gafieira. Quando mandavam a gente pra casa, jogávamos pimenta por baixo da porta. A pista ficava insuportável”, relembra.

“Muitos presidentes já cuidaram do Lenhadores, mas Marujo foi o que mais investiu”, reconhece Roberto Lobler. Os cuidados do novo presidente parecem estar surtindo efeito. Há 5 anos sem desfilar no carnaval por falta de verba, esse ano o Clube Carnavalesco Misto Lenhadores Olindenses terá o apoio da Prefeitura de Olinda com grupo de passistas e vai para a rua.

Sede do clube passou por reforma recente e ganhou até rampa de acessibilidade. O teto ainda é problema. Foto: Rodrigo Édipo

Além disso, a gestão pública também prometeu reparo no teto e pintura da sede. Animado com o apoio, Marujo faz planos. “Ele está pintado agora dessa cor, mas quando vier o apoio minha ideia é voltar com as cores originais do clube, que é o vermelho e branco”.

A atual onda de otimismo da porta para dentro do clube não reflete a voz da rua. Para Amaro, frequentador do bairro, é preciso um apoio mais consistente. “Esse clube é uma história viva, somente conseguir apoio para sair no carnaval não é suficiente, é preciso de uma reforma estrutural séria na casa”, conta.

Localizada em uma das rotas para o Alto da Sé, a sede “recebe” de forma espontânea turistas curiosos com a longevidade do clube. “Eles lêem a faixa dizendo que o clube é de 1907 e param para conhecer. Como nem sempre Marujo está aqui, eu explico pra eles o que eu sei”, relata Vanessa, moradora dos Bultrins que trabalha no entorno.

Sobre fé, lenhas e mar

São Pedro é quem abençoa os passos dos Lenhadores. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

A história do Clube Carnavalesco Misto Lenhadores Olindenses começou com uma espécie de Virgens de Bairro Novo do início do século XX. As Viúvas Destroçadas era uma brincadeira dos pescadores e vendedores de peixe do bairro do Amaro Branco, na qual desfilavam pelas ruas de Olinda vestidos de mulher.

Como na época o fogão a gás era uma raridade, os foliões pescadores tinham que catar lenha para fazer as refeições na sede do clube, que na época tinha estrutura de taipa. “Eles assavam peixe na lenha e faziam a festa com muito coco de roda”, explica Marujo. Devido ao ritual, foi decidido que deveriam batizar o bloco de Lenhadores.

Amigos do mar, os fundadores do Clube Carnavalesco Misto Lenhadores Olindenses só poderiam ter São Pedro como figura-símbolo. “É o santo protetor dos pescadores, e por conta disso tem um lugar reservado pra ele em nossa sede”. 

De repente essa fé é quem está domando o mar agitado por todo esse tempo. E que assim seja pelos próximos cento e poucos anos.