Seguindo neste mesmo ritmo de falar sobre bandas de pífano de Caruaru, não se pode deixar de lembrar da banda mais rock’n roll de todas: a Banda de Pífanos Zé do Estado, que chegou a se apresentar até no Rock in Rio.

Como tudo começou

Em meados da década de 20, no município de Coxixola, que fica entre a cidade de Sumé e Umbuzeiro, no interior da Paraíba, nasce um cidadão chamado José Feliciano Rodrigues.

Seu José Feliciano conhece um outro rapaz chamado Zé Jota, que apresenta pra ele a viola de 10 cordas, a concertina, o realejo, entre outros instrumentos, e a partir disso, desperta em seu José Feliciano o amor pela tradição e a cultura nordestina.

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Seu José Feliciano começa tocando concertina com uma banda de seus familiares chamada de Terno de Zabumba da Pimenta, em um sítio chamado Pimenta, distrito da cidade de São Bento do Una, no interior de Pernambuco, por volta de 1934. Nessa época, a banda era formada por Eduardo do Pandeiro (Zabumba), Dete (Caixa), Zé Jota (Pife) e José Feliciano (Concertina).

A própria formação da banda nessa época já era algo curioso por fugir um pouco da formação clássica das bandas de pífano da época, com 2 pífanos à frente. A banda deles tinham a particularidade de tocar com 1 pífano só.

Caruaru

Anos depois, seu José Feliciano se casa com Maria Francisca, e juntos têm 20 filhos, no qual 11 sobreviveram, mas somente 3 deram continuidade ao legado musical do pai.

Já em meados da década de 50, José Feliciano vai morar em Caruaru com a família em busca de melhores condições de vida. A família vai morar onde hoje está localizado o SESC de Caruaru, e, naquela região, seu José Feliciano, além de morar, trabalhava cuidando de animais do pessoal rico da região.

Como se tornou Zé do Estado

Na década de 60 ele começou a trabalhar no Campo de Monta, que era uma repartição pública do Estado, e foi a partir desse emprego que José Feliciano ganhou o apelido e ficou conhecido como “Zé do Estado”.

Em Caruaru, José Feliciano, agora mais conhecido pelo apelido, formou uma banda em Caruaru, dessa vez contando com a participação do seu filho mais velho: Antônio Feliciano Rodrigues (o Tonho). A formação da banda ficou sendo: Antonio Feliciano – Tonho (Pandeiro), Eduardo (Zabumba), Dete (Caixa) e Zé do Estado (Concertina).

A formação da banda nessa época já não contava mais com a presença de seu Zé Jota do Pífano, que havia falecido, e a banda agora tinha a concertina como instrumento solo.

Nesse intervalo de tempo, outros filhos de Zé do Estado começaram a tocar com a banda de João do Pife (logo depois que ele saiu da Banda Cultural, onde tocava prato, como é contado aqui nesse link), são eles: José Feliciano Rodrigues (Zé gago — Prato), Sebastião Feliciano da Silva (Bastos — Zabumba de braúna) e Gerson Rodrigues de Moura (surdo).

A banda

Em meados da década de 70, os filhos de Zé do Estado que estavam com João do Pife foram para a banda do pai. Estava formada a Banda Zé do Estado, com a seguinte formação: Antônio Feliciano Rodrigues – Tonho (Pandeiro), Sebastião Feliciano Rodrigues – Bastos (Zabumba), José Feliciano Rodrigues Filho – Zé Gago (Pratos), Gerson Feliciano Rodrigues – Capacete (Caixa) e José Feliciano Rodrigues – Zé do Estado (Concertina).

Um fato curioso dessa década é que, por um curto espaço de tempo, eles se tornaram uma banda-baile com o nome de “Jack Blacks” e tocavam músicas americanas, colocando inclusive contrabaixo, trompete, trombone e bateria, mas sem perder o pandeiro, a concertina do mestre Zé do Estado.

Essa bandinha-baile não deu muito certo e eles criaram a “Bandinha Elétrica de Campina Grande”. O nome vem do aproveitamento da naturalidade do pai , por ser da Paraíba, e pelas condições de Caruaru não serem muito boas. Mas foi só uma fase curta, depois voltaram a fazer o forró com o pai como era antes.

Em 1979, em pleno Carnaval de Caruaru (sim, Caruaru nessa época tinha Carnaval, é só olhar esse link e esse), eles formaram uma orquestra, meio escola de samba, chamada de “Só Latas”, onde eles desciam do Alto Santa Rosa até o centro da cidade, ensinando as crianças a tocar, usando só latas de margarina.

Na década de 80, fizeram a  primeira viagem internacional para Portugal, acompanhando seu João do Pife. Logo depois, na mesma época, entra um novo integrante na banda, o sobrinho de Zé do Estado, Antônio Feliciano Rodrigues da Silva, o Peba.

Peba aprendeu a tocar pífano sozinho, porque já sabia tocar flauta doce, e uma vez resolveu inverter a flauta pro lado esquerdo (pelo fato da escala de digitação ser a mesma) e assim começou com o pífano. A partir desse aprendizado, ele já passou por bandas como Banda de Pífano Princesa do Agreste e fez algumas participações na banda de Pífano Cultural (de Biu do Pife).

Ele entrou na banda do tio pra tocar o 1º pífano, e foi com isso que a banda voltou a ser de novo uma banda de pífanos (depois da morte de seu Zé Jota), mudando o nome finalmente pra “Banda de Pífanos Zé do Estado”.

No início da década de 90, com a morte do mestre Zé do Estado, Peba assume a frente da banda com seu pífano e acompanha a banda por aproximadamente 20 anos.

Ainda na década de 90, a banda de Pífanos Zé do Estado é convidada junto com Dominguinhos a participar do filme “O Cangaceiro”, produzido pela TV Globo e volta a viajar pela Europa com João do Pife, onde gravaram o LP “França Brasil” ao lado de Jacinto Silva.

Eles estiveram ao lado de grandes nomes da música brasileira como Chico Science, em seu clássico show no Central Park em Nova York. Na foto abaixo tirada em 1997, aparece: Zé da Flauta no Pífano, Severino Alfredo (irmão de João do Pife), seu Mané da Pedra (caixa), Gerson (contra-surdo), mestre Zé Gago (pratos) e mestre Bastos (zabumba).

Foto: Acervo pessoal/Zé da Flauta

Mestre Peba foi um dos grandes nomes do pífano, e só se afastou da banda por problemas de saúde já em 2013, dando lugar a Anderson do Pife.

Nesse último dia 15 de Fevereiro de 2018, Caruaru perde um dos grandes nomes e mestres do pífano da cidade, com o falecimento do Mestre Peba.

Mestre Peba (Foto: Lauro Lima/Divulgação)

Nova Formação e novos projetos

Em 2013, aconteceu em Caruaru o “IV Tocando Pífanos”, um encontro nacional de bandas de pífano organizado pelo produtor Amaro Filho, da Página21, onde Mestre Bastos da Zabumba foi o homenageado (quebrando o protocolo, pois só os pifeiros eram homenageados).

Nesse encontro, estava participando como ouvinte em um projeto da faculdade, o aluno Anderson Silva, que fazia parte do grupo de pesquisa da faculdade. Nesse encontro com a banda Zé do Estado é convidado a integrar a banda substituindo o Mestre Peba.

Ainda em 2013, foi desenvolvido o projeto “Ensaio na Feira”, onde a banda de pífanos Zé do Estado ia todo sábado para a feira para ensaiar e vender seu CD.

Em 2014 foram convidados a participar do DVD da banda Fim de Feira.

É importante destacar também que, com a banda de Pífanos Zé do Estado, percebe-se uma nova escola de bandas de pífano (“escola” enquanto vertente), na qual, do ponto de vista de formação de banda pode-se identificar duas.

A vertente da Banda de Pífano de Caruaru, no qual se tocava com 2 pífanos acompanhados pela cozinha de caixa, prato, zabumba e contra surdo e a vertente da banda de Pífano Zé do Estado, no qual, desde sua formação sempre se tocou com 1 pífano só, acompanhado por concertina, pandeiro, caixa, prato e zabumba. Isso influencia o timbre, a estruturação da rítmica da banda e todo o modo de construir o ritmo.

Essa nova formação da banda aproximou a cultura popular da academia, criando um link entre o tradicional e o moderno. Inclusive, a banda tem uma música chamada “Cutucando o Peba”, que é uma música instrumental feita em homenagem ao Mestre Peba. Nessa música, inclusive, percebe-se a estruturação musical sendo tema-improviso-tema, que por sua vez, é uma estruturação musical muito típica nas bandas de jazz.

Foi nessa época também que a banda fez o primeiro Centro de Prática e Pesquisa de Proteção das Atividades Musicais de Transmissão Oral que foi a Casa do Pife. Espaço que fica localizado na Estação Ferroviária, ao lado de outras casas de cultura popular, há aproximadamente 4 anos, onde ganhou vários prêmios, e já foi palco de aulas gratuitas de pífano e percussão, de shows, debates, e até carnaval.

Em 2017, a banda grava seu 1º disco oficial intitulado “Ainda Tem Disso Aqui”, com produção musical de César Michilles e produção executiva da Página21. O disco ainda conta com participação do também caruaruense, e um dos grandes nomes da guitarra em Pernambuco Paulo Rafael, tocando violão de 12 cordas.

Ainda em 2017, a banda é convidada fazer uma participação no show do Grande Encontro no Rock in Rio, fazendo assim uma apresentação histórica por ser a 1º banda de pífanos a subir no palco do Rock in Rio.

Esse show do RiR já foi com a formação atual da banda:

Anderson do Pife (Pífano)
Junior Franceis (caixa)
mestre Tonho (pandeiro)
mestre Bastos (zabumba)
mestre Zé Gago (pratos)

Hoje, segundo Anderson do Pife, Caruaru conta com aproximadamente 10 bandas de pífano:

Banda de Pífano Alvorada
Banda de Pífano Cultural
Banda de Pífano Princesa do Agreste
Banda de Pífano Dois Irmãos
Banda de Pífano Nossa Senhora das Graças
Banda de Pífano Santa Luzia
Banda de Pífano Zé do Estado
Banda de Pífano 3º idade
Banda de Pífano Vitoriano Jovem
Banda de Pífano Arrasta Pife.

É importante saber disso pra gente conhecer um pouquinho da nossa história e as bandas que estão na ativa hoje e que fazem parte de toda uma tradição da cultura popular do nordeste.

Espaços como Casa do Pife (e todas aquelas casas de cultura popular da Estação Ferroviária) é um dos lugares mais importantes não só pro turismo, mas pra história da cidade. Esses espaços vivem “acenando” pra ganhar notoriedade na sociedade, e mesmo com tantas atividades e prêmios, muitas vezes me vem a impressão de passarem despercebidas pela grande maioria das pessoas, o que é muito triste.

Precisamos mudar o mundo, e talvez, pros habitantes do País Caruaru, um dos muitos e possíveis caminhos, seja conhecer as histórias das bandas pífano da cidade, e frequentar mais as atividades de espaços como a Casa do Pife.