A década de 70 inteira, tanto no Brasil como no mundo, foi uma época muito marcante tanto pelas sonoridades quanto pelo estilo de vida, vale lembrar que Woodstock foi em 1969 e foi um marco para o movimento hippie e para a Era da Psicodelia.

O Brasil foi muito influenciado por isso tudo, consumindo o que vem de fora, misturando com a cultura e identidade local para experimentar novas formas de arte, que foi, a grosso modo, o mote para o Tropicalismo.

Posteriormente, salvas as devidas proporções, o Manguebeat também se inspirou nesse mote na busca de novas roupagens e estéticas musicais, na década de 90, mas isso é uma outra história.

Pernambuco psicodélico

Pernambuco teve uma participação muito importante nisso tudo. Vale lembrar que em 1972, a Banda de Pífano de Caruaru com os Bianos lançou seu primeiro LP pela CBS (para a história completa, clique AQUI).

Foi o mesmo ano em que Alceu Valença, no início da sua carreira, estava no Rio de Janeiro e gravou seu primeiro LP com o também “novato” Geraldo Azevedo, o clássico de escuta obrigatória: Quadrafônico.

Foto: Reprodução Internet

1972 também foi ano em que aconteceu, em 11 de novembro, a 1ª Feira Experimental de Música do Nordeste, no que hoje é o teatro de Nova Jerusalém, e foi considerado o Woodstock do Nordeste.

Foi nesse festival inclusive que uma jovem banda se formou, tocou e definiu até o nome: Tamarineira Village. Formada por jovens da Zona Norte do Recife: Rafles, Marco Polo, Agrício Noya, Almir de Oliveira, Ivinho e Israel Semente Proibida.

Rock medieval?

Lailson de Holanda que tinha sido convidado pelo DCE da UFPE pra ser o coordenador musical do festival, conhece Lula Côrtes, um frequentador do Beco do Barato, se aproximam para fazer som juntos e é dessa amizade que nasce um dos clássicos da música psicodélica pernambucana: o Satwa, no início de 1973.

Satwa é um disco instrumental e todo inspirado na filosofia hindu. Mas, depois dessa temporada no estúdio, os dois seguiram caminhos diferentes e Lailson partiu para [o que ele chama de] rock medieval, que de medieval só tinha a intenção.

Ele se juntou com o guitarrista  caruaruense Paulo Rafael e o flautista antenado nas bandas de pífano, que no futuro  seria conhecido como Zé da Flauta, e formaram uma banda chamada Phetus. Também com uma sonoridade maluca e letras mais doidas ainda, se apresentaram no Beco do Barato.

Clássico

Ainda no ano de 1973 Marconi Notaro grava na Rozenblit um dos discos brasileiros mais caros e raros hoje em dia, o clássico No Sub Reino dos Metazoários. Contando com alguns integrantes do Tamarineira Village, mais Zé da Flauta, Robertinho do Recife (grande nome da guitarra em Pernambuco), com capa do disco feita por Lula Côrtes, que também era artista plástico.

Por falar no Tamarineira Village, depois de 2 anos, Paulo Rafael entra na banda e, dentro de algumas reformulações, acabam mudando inclusive o nome para Ave Sangria.

Em 1974, acontece o clássico e último show do Ave Sangria, chamado de Perfumes & Baratchos, no Teatro Santa Isabel em Recife, show pouquíssimo divulgado na época pela mídia e que conta inclusive com uma música chamada Janeiro em Caruaru. Depois desse show, o pessoal da banda foi quase todo integrar a banda de Alceu Valença.

E foi essa formação do pessoal do Ave Sangria quase todo, com Zé Ramalho, Zé da Flauta e Lula Côrtes na mesma banda que Alceu divulgou seu show Vou Danado pra Catende (título de umma poesia de Ascenso Ferreira).

Zé x Zé

Show gravado ao vivo e se tornou o maior clássico de Alceu, o disco Vivo!, de 1976. Foi nesse show em que se apresentou a necessidade de diferenciar os dois Zés da banda: Zé, o da flauta, e Zé da Paraíba, que virou Zé Ramalho.

Nessa época, Lula Côrtes era considerado o guru do grupo e, logo depois de gravar o Satwa com Lailson, conheceu Zé Ramalho. Ficaram tão próximos na amizade que tiveram a ideia de viajar para o sítio arqueológico Ingá do Bacamarte no sertão da Paraíba.

Místico

Foi nesse sítio arqueológico que eles conheceram a Pedra do Ingá com direito a desenhos rupestres e tudo. Reza a lenda que os desenhos foram feitos por Sumé, um feiticeiro de outro planeta que veio à Terra para passar conhecimento para os índios.

Lula Côrtes e Zé Ramalho se apoiaram nessas lendas e decidiram fazer um disco totalmente místico inspirado nisso. E assim nasceu o Paêbiru: O Caminho que vai dar no Sol, nome inspirado numa lenda inca.

O LP era duplo (coisa rara pra época). Os dois lados são temáticos, inspirados nos 4 elementos: Terra, Fogo, Água e Ar. A obra é mais um clássico e um dos discos mais caros da história da música brasileira. A raridade do disco é devida à enchente de 1975 que aconteceu em Recife, que alagou o interior da Rozenblit, estúdio no qual o disco foi gravado.

Todos os materiais e maquinário que estava no térreo se perderam. Salvou-se apenas uma caixa com 300 cópias do Paêbiru que Kátia Mesel (esposa de Lula Côrtes) deixou no 1º andar.

É dessa época também discos como o de Flaviola: Flaviola e o Bando do Sol (1974), o disco do Aratanha Azul, único disco da carreira deles de 1979.

O 1º disco de Geraldo Azevedo, de 1977 que tem em sua última faixa no lado B a música Caruaru City Jazz, de composição do caruaruense Carlos Fernando. Carlinhos (como era chamado) escreveu essa música quando foi preso pela ditadura militar, e ela foi censurada, mas Geraldo conseguiu gravar ela com outro nome: “Coração do Agreste”, que nessa gravação ainda conta com um trecho da Feira de Caruaru de Onildo Almeida.

“Quero ver você sorrir
Quero ver você cantar
Quero ver você menina
Num galope à beira-mar
Caruaru se cerca de luz
Parece um cuscuz
Quem foi que cercou?
foi dona boleira
Que é dona cordeira
Que foi pro estrangeiro
Comprar um motor

Pra clarear a mesa
Pra clarear a pança
Pra clarear a casa
De Maria pequena
Na Matança“
(“Coração do Agreste” — Carlos Fernando/Geraldo Azevedo)

Matança era uma zona de prostituição em Caruaru na década de 60–70.

Psicodelia made in Caruaru

Foto: Paula Lucatelli/Divulgação

E isso tudo foi pra contextualizar, mostrar e explicar de onde vem as referências para uma das bandas novas que têm surgido em Caruaru e tem se destacado muito no cenário musical: a 70mg.

Desde 2015, um grupo de amigos de Caruaru organizam um festival na Praia do Porto Nassau em Barreiros, litoral sul de Pernambuco. Ao término dessa 1ª edição, um dos amigos teve a ideia de formar uma banda que tocasse as músicas de Alceu Valença da década de 70 e toda a turma do Beco do Barato para a próxima edição do festival em 2016.

A partir disso, surgiu os primeiros ensaios e a banda foi tomando corpo. As influências da banda vão desde a música tradicional nordestina até esse cenário musical setentista de Lula Côrtes e cia.

O nome da banda surgiu exatamente daí, por ficar muito claro influências das sonoridades da década de 70, década da psicodelia e das substâncias lisérgicas, é daí que surge o nome “70mg”. E fazendo uma alusão metafórica também aos 7 integrantes da banda contribuindo com “10mg de muita piração” por cada integrante.

A 70mg, apesar de ser uma banda nova,  já tocou no Palco Alternativo do São João de Caruaru nessa última edição de 2017 e no festival Rec ‘n Play ainda em 2017.

Homenagens

Mas eles ainda não tem um repertório autoral suficiente para um show completo, logo, a banda mescla o repertório com músicas autorais e algumas releituras, pretendendo manter esse formato como forma de homenagem àqueles que têm como referência, como Ave Sangria, Lula Côrtes e Marconi Notaro, por exemplo.

Nas criações autorais, eles já tem 5 canções finalizadas e uma já disponibilizada em forma de single chamada Eu Vejo Medo na sua Cabeça.

A banda pretende lançar o primeiro material físico em formato de EP ainda em 2018 com 7 faixas: 5 autorais, uma de autoria da poeta Nay Harrison e uma releitura de Fidelidade de Marconi Notaro. Além disso, a banda já está confirmada no line-up do Abril Pro Rock 2018.

Formação:
Janduhy Nascimento – Voz e violão
David Garcias – Viola (10 cordas) e voz
Rennan Tôrres – Pífano, flauta e percussão
Yago Cavalcanti – Guitarra
Fábio Santos – Baixo
Nato Vila Nova – Percussão e voz
Diego Silva – Bateria e voz.

Esse é um dos exemplos do cenário musical atual de Caruaru que está surgindo agora, e é muito importante a gente ficar ligado nessas movimentações, em coisas como o Palco Alternativo do São João, que é a principal vitrine pra essas bandas.

O público conhecendo essas histórias e acompanhando e valorizando as novas produções artísticas da cidade, fortalece – e muito – a cena.