O Governo de Pernambuco decidiu retirar o monólogo “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” da programação 2018 do Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), cujo tema é “Um Viva à Liberdade”. A peça, selecionada para a Mostra de Teatro Alternativa, traz a atriz e mulher trans Renata Carvalho no papel de Jesus Cristo travesti nos dias de hoje. A 28ª edição do festival acontece no fim de julho no Agreste.

A nota enviada por meio da Secretaria de Cultura e da Fundarpe justifica que a decisão foi tomada “diante da polêmica causada pela atração e da possibilidade de prejuízos das parcerias estratégicas e nobres que o viabilizam (o festival)”. E acrescenta: “O Festival de Inverno de Garanhuns foi criado para unir e divulgar nossas expressões culturais e não para dividir e estimular a cultura do ódio e do preconceito”.

Ontem, sexta (29), o prefeito de Garanhuns, Izaías Régis, declarou na Rádio Jornal que pretendia vetar a apresentação. Ele defendeu que o monólogo é uma afronta aos valores religiosos, por ser Garanhuns “uma cidade cristã”. “Eu não tenho nada contra os transexuais, mas isso é uma coisa que atinge o cristianismo, as pessoas, as religiões”, foram as palavras do prefeito.

O PorAqui está tentando contato por telefone com o Secretário de Cultura de Pernambuco, Marcelino Granja na tarde deste sábado (30). Até o momento, não conseguimos, o celular está na caixa postal.

Mas, em sua página no Facebook, Marcelino, ao comentar o episódio, lamenta a ameaça das “perdas de parcerias estratégicas e nobres do Festival, como a Catedral e outros espaços”, caso a peça acontecesse, deixando clara a pressão do setores religiosos e políticos.

Em outra postagem, o secretário fala sobre o que chama de “episódio de intolerância contra a arte praticado pelos setores retrógrados da sociedade”, em que enxerga “exploração política da religiosidade por parte da oposição” e “pouca defesa da liberdade artística e de opinião por parte dos meios de comunicação”.

Ontem o secretário havia se posicionado, também na Rádio Jornal, pela apresentação do espetáculo. “Não vejo razão para essa polêmica. Se a prefeitura não permitir que ela seja apresentada nesse espaço, será realizada em outro lugar, provavelmente”, disse.

Marcelino Granja, secretário de Cultura de Pernambuco, defende a apresentação da peça (Foto: Divulgação/Secult-PE)

“Pelo que li sobre, a peça fala de tolerância, amor ao próximo e compaixão, mas, pelo fato de ser apresentada por uma pessoa transexual, gera incômodo. O cidadão que não gosta de determinada obra, não assista”, continuou Marcelino.

Um dia depois, veio o comunicado oficial do Governo do Estado.

Veja a nota na íntegra:

O Governo do Estado de Pernambuco, por meio da Secretaria de Cultura e da Fundarpe, decidiu cancelar a apresentação “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” da Mostra de Teatro Alternativa do Festival de Inverno de Garanhuns de 2018, diante da polêmica causada pela atração e da possibilidade de prejuízos das parcerias estratégicas e nobres que o viabilizam. O Festival de Inverno de Garanhuns foi criado para unir e divulgar nossas expressões culturais e não para dividir e estimular a cultura do ódio e do preconceito. O Governo de Pernambuco também repudia todas tentativas de exploração eleitoreira feitas do episódio.

Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco.

“Transfobia institucional”

Ontem PorAqui conversou com a diretora da peça, Natalia Mallo, diretamente de São Paulo, sobre o posicionamento do prefeito de Garanhuns. “Isso não tem outro nome: transfobia institucional. Ela está muito enraizada na nossa sociedade e o Estado reflete isso”, começa ela.

Natalia critica o fato de se cogitar o veto da peça apenas por trazer uma travesti à frente do papel de Jesus. “Ele (o prefeito de Garanhuns) deduz que é uma peça ofensiva, que vai zombar da fé de alguém. Quando, na verdade, ela faz o contrário: um apelo ao que é a essência da mensagem cristã, que é de aceitação, de perdão, de acolhimento e proteção da vida”.

Tentativas de censura

Não é a primeira vez que O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu sofre tentativas de proibição. Em outubro de 2017, em Salvador (BA), uma liminar judicial proibiu a apresentação da peça no Espaço Cultural da Barroquinha, ligado à Fundação Gregório de Matos. Mas a peça conseguiu ser apresentada no Instituto Goethe.

Um mês antes, em Jundiaí (SP), também uma liminar judicial, expedida em cima da hora, proibiu a apresentação na unidade do SESC da cidade. Ambas as decisões foram motivadas por ações movidas por grupos religiosos.

A peça tem enfrentado diversas tentativas de censura (Foto: Divulgação)

Mais recentemente, em junho deste ano, no Rio de Janeiro, o prefeito Marcelo Crivella conseguiu barrar a peça na Arena Carioca Fernando Torres, ligada à prefeitura. O espetáculo acabou sendo apresentado na Fundição Progresso, na Lapa, e, devido à repercussão, acabou tendo que abrir uma sessão extra.

Sobre o caso de Garanhuns, Natalia avalia o risco que se corre com essas tentativas de cerceamento da liberdade de expressão artística. “É mais uma série de absurdos que ficaram naturalizados. Como se fosse possível censurar e proibir sem ter a menor ideia do que esse ato de violência significa”.

Sobre a peça

O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu é baseado no texto da dramaturga britânica trans Jo Clifford.  No Brasil, é realizado pelo Núcleo Corpo Rastreado, de São Paulo, e tem direção, tradução e adaptação de Natalia Mallo.

E se Jesus vivesse nos tempos de hoje e fosse travesti?”, é a pergunta chave da peça, que traz dilemas morais lançados por Jesus, adaptados à realidade contemporânea, com reflexões sobre tolerância, compaixão e perdão.

Passagens bíblicas são recontadas em uma perspectiva contemporânea, propondo uma reflexão sobre a opressão e a intolerância sofridas por pessoas trans e minorias em geral na sociedade.

Histórias como O Bom Samaritano, A semente de mostarda e A Mulher Adúltera são atualizadas, para contextualizá-las com a vivência cotidiana de transexuais, como a atriz Renata Carvalho, que vive Jesus no espetáculo.