Atualizado em 3/7/2018, às 17h37

Após o polêmico episódio que culminou com o cancelamento do monólogo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu da programação do Festival de Inverno de Garanhuns 2018, uma iniciativa popular se colocou como alternativa para garantir a apresentação da peça no FIG: está no ar uma campanha de financiamento coletivo para arrecadar fundos para que o espetáculo aconteça em solo garanhuense.

Com o nome “A Liberdade TRANSforma”, o crowdfunding foi criado por um coletivo da sociedade civil – entre eles, artistas, jornalistas, produtores e militantes – e na manhã desta terça (3) conseguiu atingir a meta de R$ 6 mil, valor mínimo para conseguir viabilizar a realização da peça em Garanhuns.

O valor arrecadado será para cobrir os custos de passagens, hospedagem e alimentação da equipe do espetáculo. A campanha ainda segue no ar, se encerrando no próximo dia 10. O que for arrecadado, até lá, além dos R$ 6 mil será utilizado para pagamento de cachês, peças de divulgação e contratação de segurança.

“Assim que soubemos da censura da peça, primeiro pela declaração do prefeito da cidade, Izaías Régis, em seguida pela nota oficial do Governo do Estado, espontaneamente começamos a nos articular nas redes sociais”, diz o jornalista Chico Ludermir, que integra o grupo e publicou em seu Facebook uma carta aberta em defesa da apresentação da peça no FIG.

Além do crowdfunding, foram criados em favor da peça uma petição online pedindo sua apresentação e um evento no Facebook, que já reúne o apoio de 2 mil pessoas que confirmaram presença ou demonstraram interesse em apoio à causa.

“Diante das injustiças e preconceitos, não é possível o silêncio. Diante do retrocesso, conservadorismo e transfobia, temos que nos mover – e é o que estamos fazendo. E não somos poucos. Muitos artistas que compõem a grade do evento estão conosco e vão se posicionar em suas apresentações”, declara Chico.

Entenda

No dia seguinte à divulgação da programação do FIG 2018, o prefeito de Garanhuns, Izaías Régis, declarou ser contra a apresentação do espetáculo, por ser uma afronta aos “valores cristãos” do povo da cidade, e desautorizou qualquer espaço público municipal a sediar a apresentação.

Na ocasião, em entrevista ao PorAqui, a diretora da peça, Natalia Mallo, disse que a atitude de Izaías se tratava de “transfobia institucional”, por querer vetar uma peça apenas pelo fato de ter a atriz e mulher trans Renata Carvalho no papel de Jesus.

Na peça, a atriz e mulher trans Renata Carvalho vive Jesus (Foto: Divulgação)

Inicialmente, o secretário de Cultura de Pernambuco, Marcelino Granja, se posicionou a favor da apresentação, chegando a declarar, em suas redes sociais, que se tratava de um “episódio de intolerância contra a arte praticado pelos setores retrógrados da sociedade”.

No entanto, o Governo do Estado decidiu por cancelar a peça, o que gerou ainda mais reações. Em nota, a Secretaria de Cultura de Pernambuco, declarou que “O Festival de Inverno de Garanhuns foi criado para unir e divulgar nossas expressões culturais e não para dividir e estimular a cultura do ódio e do preconceito”.

Secretário de Cultura de Pernambuco, Marcelino Granja (Foto: Divulgação/Secult-PE)

A Diocese de Garanhuns, em uma extensa nota assinada por Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa, também se manifestou contra a peça, ameaçando fechar as portas da Catedral de Santo Antônio para parte da programação do FIG que lá acontece, caso o Governo mantivesse a peça na programação do festival.

“Se Garanhuns é uma cidade onde existe LBGTIfobia – realidade de todo Brasil – isso é um motivo a mais para que um festival, cujo lema é ‘Um viva à liberdade‘ acolha uma travesti atriz em sua programação. É vendo elas trabalhando, nos palcos ou em qualquer lugar, que acabamos com o preconceito, e não perpetuando essas pessoas à margem”, rebate Chico Ludermir.

Apoio estrangeiro

Em seu perfil no Facebook, a dramaturga britânica Jo Clifford, autora do texto original de O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, publicou sobre a campanha de financiamento coletivo e os últimos acontecimentos que envolvem a peça.

(Foto: Reprodução/Facebook)

“Estou profundamente comovida ao ver isto. É uma iniciativa de financiamento coletivo para levantar o dinheiro necessário para que O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu possa ser apresentada em Garanhuns, este mês, apesar de ter sido banida do festival que vai acontecer na cidade”, diz a autora.

“Eu nunca quis que minha peça provocasse ódio ou ofendesse. Estou profundamente tocada pelo fato dela também inspirar tanto amor”, continua Jo.

Sobre a peça

O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu é baseado no texto da dramaturga britânica trans Jo Clifford. No Brasil, é realizado pelo Núcleo Corpo Rastreado, de São Paulo, e tem direção, tradução e adaptação de Natalia Mallo.

“E se Jesus vivesse nos tempos de hoje e fosse travesti?”, é a pergunta chave da peça, que traz dilemas morais lançados por Jesus, adaptados à realidade contemporânea, com reflexões sobre tolerância, compaixão e perdão.

Passagens bíblicas são recontadas em uma perspectiva contemporânea, propondo uma reflexão sobre a opressão e a intolerância sofridas por pessoas trans e minorias em geral na sociedade.

Histórias como O Bom Samaritano, A semente de mostarda e A Mulher Adúltera são atualizadas, para contextualizá-las com a vivência cotidiana de transexuais, como a atriz Renata Carvalho, que vive Jesus no espetáculo.