Ele chegou andando com certa dificuldade, apoiado numa bengala e perguntando: “Você é a menina da internet? Vamos prosear sentando ali no meio do salão”. Esse foi o primeiro contato com José Francisco Borges, 82 anos, famoso pelas suas xilogravuras e cordéis. A conversa foi marcada no ateliê dele, localizado as margens da BR 232, no município de Bezerros, no agreste pernambucano.

Quem passa pela BR 232, sentido Recife, já visualiza o memorial. (Foto: Conceição Ricarte/PorAqui)

J. Borges, como prefere ser chamado, é um entrevistado alegre, de riso fácil e um tremendo contador de histórias. Filho de agricultores, nasceu e foi criado em Bezerros, aos oito anos já empunhava a enxada. Foi para a escola só aos 12, mas a frequentou apenas dez meses. Foi marceneiro, mascate, pintor de parede e oleiro. Aos 20 anos, começou a vender cordéis de outros escritores nas feiras.

Em 1964, aos 29 anos, publicou a primeira obra: O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina. Vendeu 5 mil exemplares em dois meses. Sua principal arte, porém, não são os versos, e, sim, a xilogravura. A descoberta foi por acaso.

Sem dinheiro para comprar as chapas de zinco que serviam de base para a confecção das capas dos cordéis, pegou um pedaço de imburana e talhou uma igrejinha. O desenho tosco estampou a capa de seu segundo trabalho e daí não parou mais.

J. Borges e sua arte. (Foto: Conceição Ricarte/PorAqui)

Em 1973, J. Borges começou a ser conhecido quando dois pintores, Ivan Marquetti e José Maria de Souza, adquiriram seus trabalhos e apresentaram ao seu conterrâneo Ariano Suassuna, que se tornou uma espécie de “padrinho” do artista, além de amigo.

A partir desse encontro, suas gravuras começaram a fazer parte do acervo de intelectuais, artistas, colecionadores de arte e admiradores de todo o mundo.

Entrevista

É verdade que o senhor frequentou a escola só para aprender a ler para ler cordel?
JB – Estudei numa escolinha apenas 10 meses e quando tinha boato do papa-figo eu nem ia. Mas quando fui para escola, já levei um cordel de uma banda para ver se conseguia ler no primeiro dia.

De onde vem a inspiração para escrever os cordéis?
JB – A inspiração vem daqui mesmo, da região, do dia a dia, do costume do povo, do folclore nordestino, das lendas. Então é o que se vê, o que se sente… A gente escreve e grava.

Qual é o mais famoso? Conta a história de quê?
JB – O mais famoso é A chegada da prostituta no céu, que vendeu mais de 100 mil exemplares. Ele conta a história de uma prostituta que morreu, foi pra o céu, chegou lá e começou a namorar com os santos e foi um bafafá desgraçado.

Como surgiu a ideia de trabalhar com xilogravura?
JB – Surgiu da necessidade de ilustrar os cordéis que eu escrevia. Eu nunca vi ilustrar… Nunca vi fazer, mas tinha noção de como era feito. Naquela época, se chamava quicé de madeira, aí eu tentei fazer e deu certo. Eu fiz um, levei na gráfica, o rapaz tirou uma cópia, disse que dava pra ler e dava pra imprimir bem.

Aí mandei imprimir o cordel e vendi. Fui bem sucedido, vendi logo duas mil cópias na primeira fornada, fiz mais dois, mais dois, fui fazendo… Depois escrevi outro cordel, outras gravuras e comecei a receber encomendas de outros cordelistas.

Eu fui fazendo até que, por volta de 1970, surgiram uns pintores do Rio de Janeiro que descobriram meu trabalho aqui só fazendo capa de cordel. Gostaram muito e começaram a fazer encomenda de um trabalho maior. E aí eu fiz e eles gostaram muito e depois o Ivan Marquetti me disse que a intenção dele comprar aquele trabalho, não era nem pra vender nem pra nada porque ele também era artista… Ele queria me divulgar. A intenção dele era me ajudar e me divulgar.

E a ideia de criar?
JB – Aí nesse período, Ivan Marquetti e José Maria de Souza pegaram uma série de trabalhos meus e mostraram para Ariano Suassuna. Ele viu ficou muito entusiasmado, me chamou lá na reitoria e disse que intuito dele era me divulgar.

Ariano conseguiu me emplacar nos principais veículos de comunicação de Pernambuco e do Brasil numa semana só. Meu nome foi lá pra cima… Ele dizia que eu era o melhor do Nordeste, e o povo acreditou.

Cordéis de J. Borges (Foto: Divulgação)

Como o senhor recebeu a notícia de que era patrimônio vivo?
JB – Surgiu esse boato e me convidaram. Eu disse que não queria ir, mas eu já tinha sido inscrito e o Conselho de Cultura do Estado procurou diretamente a prefeitura, que me inscreveu. Então, eu fui… Quando chegamos lá, tava todo pessoal da cultura do Estado.

Na assinatura do projeto, me colocaram pra discursar e fiquei cheio de dedos. Agradeci muito em nome da arte de Pernambuco, mas dizendo sempre que não acreditava em projetos porque tudo sempre ficava engavetado. O governador da época disse que esse ia sair do papel, mesmo assim não acreditei.

Anos depois, fomos para uma festa no Palácio do Campo das Princesas. Estava tudo interditado na frente, tinha aquelas luzes, um festão, e eu recebi o título de patrimônio vivo de Pernambuco. Aí eu acreditei. E funciona direitinho até hoje.

O senhor tem 18 filhos e outros seis adotivos. Como foi criar tantos filhos?
JB – No momento só tenho 11 filhos vivos, quatro deles fazem suas gravuras também e já estão vendendo por aí. Tive uma boa experiência de vida, três famílias. E se tivesse mais tempo de vida, continuaria tendo filho. Acho uma coisa muito bonita. Mas agora já estou fora da validade, tenho é que criar o meu mais novo, que já está até me ajudando aqui na oficina.

O senhor vive só da arte?
JB – Atualmente, sim. Tenho um beneficio do INSS, de onde recebo um salário mínimo e o patrimônio vivo do estado, mas isso não dá pra minha despesa não. Aí eu inteiro com a arte.

Qual o valor de uma xilogravura e de um cordel?
JB – O cordel é a partir de um real e tem peça de até 600 reais.

O senhor gosta de fazer trabalhos sob encomenda?
JB  Eu faço encomendas, sim. É a maneira de ganhar um dinheirinho a mais. Porque aqui eu posso fazer trabalhos de mil reais num dia, mas tenho que esperar alguém vir para comprar, já as empresas que encomendam eu posso contar com aquele dinheiro certo.

É muito comum ao artista brasileiro ele produzir, fazer sucesso, todo mundo gostar e o trabalho ser reconhecido no exterior? Por que dificilmente o dinheiro não vem junto com esse sucesso?
JB – Olhe eu não sei não. No meu lugar eu acho que é porque eu não me entusiasmei muito pra ganhar dinheiro, eu queria arranjar a fama. É tanto que o meu trabalho se mantém ainda o mesmo preço de antes. Do jeito que eu vendia quando não tinha fama.

Porque se eu pudesse, eu trabalhava e distribuía minha arte para todo mundo… eu dava, mas como eu não posso… tenho que sobreviver, comprar matéria prima cara, que madeira tá muito caro, tinta, papel…por isso eu cobro, mas é um preço que um doutor compra e um operário também compra. Se gostar, pode comprar. É por isso, que o dinheiro não vem junto com a fama, no meu caso.

Memorial J. Borges
?BR 232, entrada de Bezerros (sentido Caruaru-Recife)
⏲Segunda à sexta-feira: das 7h às 17h e sábados: 7h às 11h.