Mal foi anunciada a programação do FIG 2018, uma polêmica já se instaurou antes mesmo de começar o festival. O prefeito de Garanhuns, Izaías Régis, declarou, em entrevista à Rádio Jornal, nesta sexta (29), que pretende vetar a apresentação do espetáculo O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu, durante a 3ª Mostra de Teatro Alternativo do FIG.

Segundo Izaías, o monólogo – que traz a atriz e mulher trans Renata Carvalho no papel de Jesus Cristo travesti, nos dias de hoje – é uma afronta aos valores religiosos, por ser Garanhuns “uma cidade cristã”. “Eu não tenho nada contra os transexuais, mas isso é uma coisa que atinge o cristianismo, as pessoas, as religiões”, disse o prefeito.

O PorAqui conversou com a diretora da peça, Natalia Mallo, diretamente de São Paulo, sobre o posicionamento do prefeito de Garanhuns. “Isso não tem outro nome: transfobia institucional. Ela está muito enraizada na nossa sociedade e o Estado reflete isso”, começa ela.

A atriz Renata Cravalho vive Jesus (Foto: Divulgação)

Natalia critica o fato de se cogitar o veto da peça apenas por trazer uma travesti à frente do papel de Jesus. “Ele (o prefeito de Garanhuns) deduz que é uma peça ofensiva, que vai zombar da fé de alguém. Quando, na verdade, ela faz o contrário: um apelo ao que é a essência da mensagem cristã, que é de aceitação, de perdão, de acolhimento e proteção da vida”.

Um Viva à Liberdade

O mais curioso é que esta 28ª edição do FIG, realizado pelo Governo de Pernambuco, traz como tema “Um Viva à Liberdade”, que exalta as liberdades artística, estética, política, religiosa e de expressão.

Em defesa desse tema, o secretário de Cultura de Pernambuco, Marcelino Granja, se posicionou pela apresentação do espetáculo. “Não vejo razão para essa polêmica. Se a prefeitura não permitir que ela seja apresentada nesse espaço, será realizada em outro lugar, provavelmente”, disse, também em entrevista à Rádio Jornal.

Marcelino Granja, secretário de Cultura de Pernambuco, defende a apresentação da peça (Foto: Divulgação/Secult-PE)

“Pelo que li sobre, a peça fala de tolerância, amor ao próximo e compaixão, mas, pelo fato de ser apresentada por uma pessoa transexual, gera incômodo. O cidadão que não gosta de determinada obra, não assista”, continuou Marcelino.

“É muito bom que os festivais se posicionem, abordando temas como este, porque essa atitude do prefeito (Izaías Régis) mostra o quanto essa liberdade está ameaçada”, endossa Natalia Mallo sobre o tema.

Reação popular

Em resposta à tentativa de veto da peça no FIG 2018, foi criada uma petição online, através do site avaaz.org, para demarcar a posição popular em favor do espetáculo. O abaixo assinado foi criado pelo internauta Rodrigo Dourado, que assina virtualmente RoDrag D, e é aberto a receber assinaturas de pessoas de todo o país.

A campanha foi compartilhada por Natalia Mallo no seu perfil no Facebook. “Eu vejo essas petições como algo simbólico, mas de uma importância muito grande. Faz parte de uma mobilização da sociedade civil em favor da liberdade de expressão e do Estado Laico. É uma medida que, somada a uma rede de apoio a favor da liberdade artística, é super importante”.

Via Crucis marcada por tentativas de censura

Não é a primeira vez que O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu sofre tentativas de proibição. Em outubro de 2017, em Salvador (BA), uma liminar judicial proibiu a apresentação da peça no Espaço Cultural da Barroquinha, ligado à Fundação Gregório de Matos. Mas a peça conseguiu ser apresentada no Instituto Goethe.

Um mês antes, em Jundiaí (SP), também uma liminar judicial, expedida em cima da hora, proibiu a apresentação na unidade do SESC da cidade. Ambas as decisões foram motivadas por ações movidas por grupos religiosos.

A peça tem enfrentado diversas tentativas de censura (Foto: Divulgação)

Mais recentemente, em junho deste ano, no Rio de Janeiro, o prefeito Marcelo Crivella conseguiu barrar a peça na Arena Carioca Fernando Torres, ligada à prefeitura. O espetáculo acabou sendo apresentado na Fundição Progresso, na Lapa, e, devido à repercussão, acabou tendo que abrir uma sessão extra.

Sobre o caso de Garanhuns, Natalia avalia o risco que se corre com essas tentativas de cerceamento da liberdade de expressão artística. “É mais uma série de absurdos que ficaram naturalizados. Como se fosse possível censurar e proibir sem ter a menor ideia do que esse ato de violência significa”.

Sobre a peça

O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu é baseado no texto da dramaturga britânica trans Jo Clifford.  No Brasil, é realizado pelo Núcleo Corpo Rastreado, de São Paulo, e tem direção, tradução e adaptação de Natalia Mallo.

E se Jesus vivesse nos tempos de hoje e fosse travesti?”, é a pergunta chave da peça, que traz dilemas morais lançados por Jesus, adaptados à realidade contemporânea, com reflexões sobre tolerância, compaixão e perdão.

Passagens bíblicas são recontadas em uma perspectiva contemporânea, propondo uma reflexão sobre a opressão e a intolerância sofridas por pessoas trans e minorias em geral na sociedade.

Histórias como O Bom Samaritano, A semente de mostarda e A Mulher Adúltera são atualizadas, para contextualizá-las com a vivência cotidiana de transexuais, como a atriz Renata Carvalho, que vive Jesus no espetáculo.

com informações da Rádio Jornal