A literatura de cordel clássica se divide, basicamente, em duas fases, a 1ª geração (1900–1920/30), com nomes como Silvino Pirauá e José Camelo de Melo, que é autor do que se acredita ser o maior clássico da literatura de cordel: o “Pavão Misterioso” , de 1923. E o pessoal da 2ª geração (1920/30 em diante) como José Pacheco, autor do clássico “A Chegada de Lampião no Inferno”, José Martins Athayde e o caruaruense Francisco Sales Arêda.

Sales Arêda nasceu em Campina Grande, na Paraíba, em 1916, mas foi morar em Caruaru em 1927. Trabalhava como fotógrafo ambulante, folheteiro e cantador de viola. Nas décadas de 40 e 50, chegou a desafiar grandes mestres da cantoria, como os irmãos Dimas e Lourival Batista (Louro do Pajeú), Pinto do Monteiro e Zé Vicente da Paraíba.

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Desde os 15 anos escrevia poesia, mas só em 1946 escreveu seu primeiro cordel: “O casamento e herança de Chica Pançuda com Bernardo Pelado”. Apesar de só ter frequentado o ensino formal por 3 meses, consumia e escrevia muita literatura, se tornando um reconhecido cordelista por seu domínio nas métricas, rimas e metáforas.

Um dos temas mais recorrentes em seus escritos eram fábulas, contos de encantamento e enredos de ficção. Outros também repetiam esses temas.

De tudo tem um cordel

Vale até lembrar que os textos dos cordéis não apenas retratam a paisagem e o cotidiano sertanejo ao melhor estilo de “Carcará”, de João do Vale, ou “Algodão”, de Luiz Gonzaga, mas vão além disso. Os poetas populares falam de tudo em seus versos, como política, problemas sociais, cotidiano, memórias, sentimentos e até contos fantásticos, utilizando personagens de crenças religiosas como Diabo, Deus, Padre Cícero, São Pedro e por aí vai.

Um bom exemplo disso é um conto de Sales Arêda chamado “A Malassombrada peleja de Francisco Sales com Negro Visão”, que ele já começa dizendo:

Senhores, quem é poeta
está sujeito encontrar
com espírito maconheiro
cheio de truque e azar
quem na vida foi poeta
Morreu e inda quer versar

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Outro exemplo são os romances, com destaque para “O homem da vaca e o poder da fortuna”, escrito em 1963, que aborda o tema da preguiça e acomodação ao melhor estilo Albert Cossery,  escritor egípcio, apologista da preguiça e do ócio.

Por isso conto uma história
Que ouvi contá-la lá em Trancoso
De um homem pobre demais
Além disso preguiçoso
Casado com uma mulher
De coração generoso

O conto se passa com o personagem sertanejo Joaquim Simão, que não quer trabalhar nem se esforçar pra nada, lembrando muito também o personagem de “O ABC do Preguiçoso”, gravado por Geraldo Azevedo e Xangai no disco “Cantoria 1” de 1984:

Disgramado se alevanta, deixa de ser preguiçoso
O homi que num trabáia num pode cumê gostoso.
É que trabaiá é muito bom num é minha véia
Mas é um pouco arriscoso e ai d’eu sodade

No enredo do cordel, Joaquim Simão é pobre, preguiçoso e acomodado, não quer fazer nada, mas fica rico no final da história. Arêda arremata:

Pois assim como Joaquim
Foi um pobre sem valor
E um dia veio a fortuna
Acalmar a sua dor
Qualquer um pode também
Ser disto merecedor

Para Ariano, Arêda era um clássico

Esse cordel inspirou Ariano Suassuna a escrever uma peça teatral em 1973 chamada “A Farsa da Boa Preguiça”, em que o personagem principal também se chama Joaquim Simão, um poeta na peça de Ariano.

Ariano tinha muita admiração por Sales Arêda e ainda dizia ser um clássico que ele teve a sorte de conhecer.

Outra prática de Arêda era terminar os cordéis fazendo uso de acrósticos, que é um artifício que poetas usam para confirmar a autoria daquele texto, além da função estética.

Um acróstico é uma sequência de letras em uma composição poética onde lidas em determinada direção formam outra palavra. Sales Arêda usava o “FSALES” nos finais dos textos, como esse abaixo, que é o final do cordel “O homem da vaca e o poder da fortuna”.

Fazendo fé na fortuna
Sem nunca desanimar
Aonde encontrá-la um dia
Lhe abrace pra não soltar
Estando com ela ao lado
Segure até se acabar

E ainda esse encerramento do cordel “História dos 2 compadres e os ladrões da pedra mimosa”:

Foi conhecido em toda parte
Sua fama magestoza
Aquele pobre que teve
Luz brilhante e valorosa
Enquanto viveu, gozou
Sonhando a pedra mimosa

Uma exceção a isso vem de um cordel chamado “Jesus e São Pedro”, que Sales Arêda divide autoria com um outro poeta cordelista de Caruaru, José Soares da Silva Dila, também conhecido por “mestre Dila”. No final do texto, Arêda, em homenagem ao amigo Dila fecha com o acróstico “DSOARES”:

Depois que Jesus foi preso
Sentenciado e morto
O avarento ainda
Andava de porta em porta
Rogando praga e gemendo
Enfim ainda está vivendo
Sem encontrar um conforto

Coisa de filme

Como se não bastasse, Sales Arêda fez os versos da trilha sonora do filme “A peleja do bumba meu boi contra o vampiro do meio-dia”, que foi musicada depois pelo caruaruense Jadilson Lourenço. O filme foi gravado na década de 80 em Caruaru, mas prometo contar essa história depois em outro texto.

O sertão do Pajeú inteiro, em especial São José do Egito, é considerado a terra da poesia, mas Caruaru como “berço inesgotável de tanto talento e tanto valor”, como diria o poeta caruaruense Rogério Meneses, tem também seu histórico de poesia com nomes que não se pode deixar ser esquecido como Francisco Sales Arêda, apesar de ser paraibano, foi em Caruaru onde começou a criar.

O poeta é um repórter
das ocultas tradições
revelador dos segredos
guiado por gênios bons
pintor dos dramas poéticos
em todas as composições

(sextilha que inicia o cordel “O Romance de João Besta e a Gia da Lagoa” — Sales Arêda)