Eita que o famoso religare nunca entrou na moda! Conectar as pessoas com o divino (que compreende união, convivência harmônica, serviço desinteressado ao próximo, paz de espírito etc) deveria ser a verdadeira missão das religiões. Por que isso não tem acontecido plenamente ao longo das eras? As seitas que tanto deveriam unir, conectar, reconectar, acabam, em sua maioria, por tumultuar as coisas. E por banalidades. O caso envolvendo a peça teatral O Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu, que vem colecionando polêmicas mesquinhas (a mais recente em Garanhuns-PE, onde foi proibida e depois autorizada judicialmente), é exemplo disso.

Jesus era heterossexual? Sim? Não? E esse sim ou não muda alguma coisa em sua genial passagem por este planeta? Jesus era hétero ou gente? Homossexual não é gente? Travesti não é gente? Quem não é hétero não pode ser evoluído, extraordinário, divino? Até onde a ignorância e o preconceito continuarão determinando quem é quem? Mais: por que a maioria das religiões não abraça as pessoas por serem… Pessoas?

Antes de me prolongar, vale ressaltar a já citada mesquinhez das polêmicas que a peça vem sofrendo (por pessoas que sequer a assistiram). O enredo mistura monólogo com contação de histórias, colocando Jesus nos dias de hoje como uma mulher transgênero, “propondo uma reflexão sobre a opressão e a intolerância sofridas por pessoas trans e minorias em geral na sociedade”, como revela a sinopse do espetáculo. Ou seja: em nada fere o sagrado convencionado (e se ferisse, será que mereceria tantos holofotes?).

(Lembrei-me do excelente livro de Nikos Kazantzakis, A Última Tentação, que, a exemplo do filme de Martin Scorcese – que adaptou a obra para o cinema na década de 80 com o título A Última Tentação de Cristo –, provocou escândalos bizarros na época em pessoas que nada compreenderam o teor artístico e os espelhos reflexivos contidos em ambas as obras)

Quer dizer que se Jesus voltasse à Terra não poderia ser trans? Mulher? Teria que ser homem e hétero? (e à época em que ele viveu não existiam outras pessoas com opções sexuais diferentes?) Que há de pecado numa obra artística que, ao simular Jesus na atualidade, coloque-o como símile dos oprimidos que ele tanto ajudou há mais de dois mil anos?

O sexo e a sexualidade, para as almas sublimes que por aqui passam, são meros detalhes. Se Jesus não teve nenhuma mulher em sua breve passagem por aqui, isso não demonstra que esse tema nada significava pra ele? (e se por acaso teve, isso o diminuíria em quê?) Se não discriminou ninguém, cuidou dos excluídos como poucos (leprosos, por exemplo), tornou igual homens e mulheres sem distinção de sexualidade, traçou o amor como fonte e meta de todos os seres… Que bobagem é essa de, em pleno Século 21, as pessoas se engalfinharem por conta disso?

Religião x Arte

Sou capaz de entender as partes envolvidas – de um lado a ânsia por romper padrões e defender a liberdade artística; do outro o apego às convenções sociais e religiosas; cada qual com seus sensos de razão e passionalidade – mas… Sinceramente? As discussões deveriam tratar da qualidade da arte que é feita atualmente no país, ou da interferência das religiões na vida dos indivíduos, ou da liberdade (também a criativa) que não deve ser cerceada, ou ainda do quanto política e religião continuam andando perigosamente juntas, ou também dos altos índices dos crimes contra pessoas de opção sexual diferente – aliás, de todas as opções sexuais. Discutir sobre o sexo dos anjos… ops! do Cristo, perdoem-me, é uma bobagem sem tamanho!

Enquanto o cantor Johnny Hooker baixava o nível nos palcos do Festival de Inverno de Garanhuns por conta da polêmica (sim, Johnny, você acabou fazendo o joguinho tolo dos ignorantes), mais de um LGBT eram assassinados no Brasil (sim, aqui pelo menos um assassinato desse tipo acontece a cada 19 horas!). Enquanto o prefeito e parte do povo da cidade interiorana se revoltavam, o Brasil continuava colecionando mais da metade dos casos de assassinatos contra LGBT em todo o mundo (sim, esse é o status absurdo do nosso país!). Enquanto você lê essa matéria, esses dados vergonhosos só aumentam (sim, e o que estamos fazendo para acabar com isso? Polemizando bobagens em nada contribui para mudar esse quadro!)

Os filhos de Deus permanecem brincando de demônio. Matam. Humilham. Perseguem. Roubam. Discriminam. Rompem paradoxalmente os preceitos religiosos que muitas vezes apregoam. Rezam pedindo paz, mas agem promovendo a discórdia. Os filhos de Deus que acreditam ou não Nele. Os filhos de Deus que crucificaram Jesus e continuam crucificando-o até hoje. Os filhos de Deus, como eu e você, que se esquecem de ser Deus. Para vocês, nós, afirmo: Jesus não era hétero. Jesus era gente. E todos nós, sejamos de qualquer opção sexual, também. Ponto final.

Sidney Nicéas é escritor e tem cinco obras publicadas, sendo a mais recente “Noite em Clara – um Romance (e uma Mulher) em Fragmentos”. Realiza palestras, workshops e oficinas de Criatividade e Escrita e é apresentador do programa “Tesão Literário”, na TV Pimenta (webtv). Contato: sidneyniceas@gmail.com.

 

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