Entre as muitas conversas de mesa de bar, geralmente sobre literatura, música e outras aleatoriedades, lembro que, nesse dia, a conversa girava em torno de História e de livros. Até que, em um determinado momento, surge um protagonista: José Condé.

Curiosamente não estávamos nesse dia na rua João Condé, o pai de José, onde geralmente costuma rolar esses encontros, estávamos na rua Minas Gerais, em uma bodega que foi criada na época da adolescência dele, na década de 30, em Caruaru.

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Como eu não sou de desperdiçar aprendizados de mesa de bar, fui pra casa com essa tarefa, ler José Condé.

Quer ser conde, é?

Prometo não voltar muito no tempo, mas o avô do escritor Álvaro Lins (Joaquim do Rêgo Barros) era amigo do avô de José Condé (José Florêncio de Sousa Pepeu) e brincava com José Florêncio, chamando ele “gente do Mondé” (Mondé era um riacho do qual vinha a família de José Florêncio).

Florêncio respondendo a brincadeira dizia que era do riacho, mas tinha sangue azul, daí que o avô de Álvaro Lins dizia “ah, quer ser conde, é?”. Bom, o povo entendia “Condé”, e daí José Florêncio ficou conhecido como “Zé Condé”.

O apelido pegou tanto que José Florêncio passou a chamar o filho João de “João Condé”, que por sua vez registrou os filhos oficialmente com o nome de Condé.

A vida de José Condé

José Condé nasceu em 22 de outubro de 1917 e morou parte da infância na famosa casa de nº 300 na rua da Matriz, construída pelo pai em 1925, e demolida na calada da noite. Pois é, Caruaru derrubou uma casa da década de 20 pra transformar em um prédio comercial qualquer.

João “Condé”, o pai, gostava muito de cinema, chegou a adquirir inclusive o Cine Theatro Rio Branco mudando o nome para Cine Theatro Avenida, um dos principais cinemas de Caruaru que também ficava localizado na rua da Matriz, pertinho do Palácio do Bispo (que na época era chamado de Paço Imperial). Bom, nem precisa dizer o que aconteceu com o cinema né, virou loja, aliás, Caruaru hoje em dia nem cinema de rua tem mais.

Quando o pai de José Condé morreu em 1929, o irmão mais velho Elysio Condé levou os irmãos (José e João Condé) pra morar em Petrópolis (RJ). José Condé estudou no colégio Plínio Leite, onde fundou o Grêmio Literário Alberto de Oliveira e dirigiu dois pequenos jornais (“Pra Você” e “Jaú”), onde publicou seu primeiro conto “Vingança”.

Prestou vestibular pra Direito e, por volta de 1937, publicou um poema na revista “O Cruzeiro” chamado de “A Feira de Caruaru”.  Foi a partir desse texto que começou sua vida de literato.

Condé trabalhou um tempo como colunista em “O Jornal”, escrevendo crônicas com o pseudônimo de Mr. Chips. A partir da década de 50, começou a trabalhar no “Correio da Manhã” junto com Álvaro Lins e, nesse período, manteve uma coluna chamada “Escritores e Livros”, que era bem cobiçada pelos literatos brasileiros.

Além disso, José Condé era um autêntico boêmio, gostava de sair na noite do Rio de Janeiro e quando estava em casa, gostava de escrever a máquina ao som de Mozart, Bach, Schubert, Tchaikowsky, a depender de seu estado de espírito. Nas reuniões em casa, escutava muita música popular brasileira e frevo.

Livros e desdobramentos

Em 1945, publicou o seu primeiro livro “ Caminhos na Sombra”, pela Editora José Olympio. Em 1950 publicou o romance popular “Onda Selvagem”, tendo recebido através de Concurso o Prêmio “Malheiro Dias”, como segundo colocado.

Em 1951 numa Edição do Jornal de Letras, publicou “Histórias da Cidade Morta”, tendo recebido o Prêmio “Fábio Prado”, da União Brasileira de Escritores de São Paulo. Em 1955, publica as novelas de “Os dias antigos”, que logo depois junta num só volume com  “História da Cidade Morta”, em uma publicação chamada de “Santa Rita” (em 1961).

Em 1959 publicou a novela “Um Ramo para Luísa” e em 1960 lançou “Terra de Caruaru”. Em 1962 publica a novela “Vento do Amanhecer em Macambira”, laureada com o prêmio Luiza Cláudio de Souza.

 

Em 1962, participa junto com outros autores, como Jorge Amado, Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz e o irmão João Condé, o romance “O Mistério do MMMs”.

Logo depois, outros livros vieram: “Noite contra Noite”, as novelas “Os Dez Mandamentos”, “Pensão Riso da Noite: Rua das Mágoas (cerveja, sanfona e amor)”, “Como uma tarde em dezembro”, “Tempo, Vida, solidão” e o conjunto de novelas “As Chuvas”. Essas duas últimas obras foram escritas já no leito de morte.

José Condé foi um escritor muito importante não só da literatura caruaruense, mas nacional. Escritores como Jorge Amado, Gilberto Freyre, Guimarães Rosa eram todos admiradores de Condé. Inclusive, a edição de 50 anos de “Sagarana” (originalmente publicado em 1946) de Guimarães Rosa, pela editora Nova Fronteira, vem com uma carta que Rosa escreveu para Condé, em que revela segredos de Sagarana, capítulo por capítulo .

Houve repercussão de sua obra até na dramaturgia, com a minissérie da Rede Globo “Rabo de Saia”, que engloba a obra “Pensão Riso da Noite: Rua das Mágoas (cerveja, sanfona e amor)”.

Eu não abordei aqui nesse texto nem metade dos detalhes da vida e obra inteira de Condé, até porque precisaria de mais uns 10 textos desse pra abordar tudo. Mas a ideia é servir de trampolim para um mergulho mais atencioso e calmo nas obras de Condé. E espero que mais conversas de rodas de café, calçadas e mesas de bar permeiem as margens da literatura de José Condé.


Frank Junior é caruaruense, mas vive em Olinda e trabalha no CESAR, no Recife Antigo com engenharia de software e programação. Nas horas vagas, costuma pesquisar sobre música e cultura popular. Gosta também de jogar conversa fora em calçadas e bodegas. Publica costumeiramente em A Ponte, que também é publicada PorAqui.

 

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