Um dos grandes nomes da música e da cultura popular de Caruaru,é o mestre da “sanfona de boca”: Tavares da Gaita.

Nascido em 10 de março de 1925 em Taquaritinga do Norte, se mudou para Toritama, onde morou por 40 anos até chegar definitivamente em Caruaru.

Filho de Manuel Tavares da Silva e Maria Bezerra da Silva, José Tavares tinha a família toda ligada aos trabalhos no campo. Viajava constantemente a Caruaru, até que foi morar de vez lá em 1957.

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O contato com a música vem desde criança. Aos 13 anos, tocava surdo na Banda de Toritama e ainda fazia parte da Regional (também conhecida como Banda Oferecida), participando como percussionista.

Já em Caruaru, tomava conta de uma casa de jogos chamado Sinuca Caruaru até se decidir pela música na década de 70, quando encontrou um realejo, um tipo de gaita, numa gaveta. Tavares  praticou até aprender a tocar, sem saber nada de teoria musical.

Com esses estudos com a gaita, ainda inventou um jeito novo de tocar, com a gaita invertida. O som se assemelhava ao de uma sanfona. Foi a partir disso que José Tavares ficou conhecido como Tavares da Gaita.

Na década de 80, Tavares viajou por vários estados do Brasil com o Teatro Mambembe de Caruaru, onde criou e tocou vários instrumentos.

Virtuosi

Além do virtuosismo com a gaita, Tavares também era artesão e desenhista. O desenho, sempre baseado em formas geométricas, era para os momentos de distração, mas os instrumentos, não. Criou por volta de 100, todos de percussão.

Inclusive, todos os instrumentos que Tavares usa são criados por ele, com matérias-prima de fácil acesso como quenga de coco, cano de PVC, madeira e coisas do tipo.

O “acoquê”, por exemplo, é um instrumento formado por duas quenga de coco, com uma fenda no meio e umas bolinhas dentro. Um outro bem conhecido também é o “bambu-reco-som”, uma espécie de reco-reco feito de bambu.

Para se ter uma ideia da grandeza artística de Tavares, ele ficou conhecido em vários países da Europa e dos EUA. O jornalista José Teles conta que no final de 1989 levou uns instrumentos de Tavares (dentre eles, um dos mais conhecidos, o quenga-som) para Naná Vasconcelos, que na época morava nos EUA. (Naná, olindense de Peixinhos foi considerado como o melhor percussionista do mundo por 4 vezes consecutivas se não me falha a memória.)

Inclusive, o próprio Naná contou numa entrevista ao Jornal do Commercio de 1991, que, se Tavares tivesse nascido nos EUA, certamente já estaria eternizado como um dos monstros sagrados do jazz. Naná ainda disse que Tavares foi considerado pelo grupo deles (Grupo Mineiro de Música Aruanda) como o melhor gaitista do mundo, no gênero música regional, em 1988. Um título desse vindo do melhor percussionista do mundo, não é pra qualquer um.

Em 2003, Tavares grava o seu 1º (e único) disco chamado “Sanfona de Boca”. Disco de forró instrumental, tendo a gaita como carro-chefe sonoro, naquele mesmo esquema, invertido, pra se parecer com uma sanfona.

Tavares faleceu em Caruaru, em abril de 2009 com 82 anos, mas deixou o legado do disco e dos instrumentos criados. Tavares mesmo sem conhecimento formal de música, inventou seus próprios instrumentos e um novo jeito de tocar gaita.

No Youtube tem um documentário curto que vale a pena assistir, sobre Tavares da Gaita, com depoimentos de Naná Vasconcelos:

 

 


Frank Junior é caruaruense, mas vive em Olinda e trabalha no CESAR, no Recife Antigo com engenharia de software e programação. Nas horas vagas, costuma pesquisar sobre música e cultura popular. Gosta também de jogar conversa fora em calçadas e bodegas. Publica costumeiramente em A Ponte, que também é publicada PorAqui.

 

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