É com um sorriso capaz de abraçar o mundo que a atriz Mohana Uchôa me recebe em frente ao clube Acadêmico, no Morro da Conceição. Era o nosso local de encontro para a entrevista. Ela me guia pelas ruas estreitas do bairro, por onde não passam carros, até a espaçosa casa verde em que mora com os pais.

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Em um apartamento nos fundos da casa, com uma vista imensa da Zona Norte até o mar, Mohana fala animadamente dos seus projetos e de como descobriu que não poderia deixar de ser atriz. O belo e forte rosto desta pernambucana ficou conhecido em setembro de 2016, quando foi ao ar pela TV Globo a série Justiça.

Agora, ela está de volta, desta vez nos cinemas, com o filme Azougue Nazaré, dirigido por Tiago Melo, em que interpreta Tita. “É uma mulher casada, integrante do maracatu Cambinda Brasileira, que se apaixona por outro homem e decide lutar pela sua liberdade”, diz Mohana.

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O filme, que deve estrear no Recife em breve, está fazendo o circuito dos festivais internacionais. Já participou do festival de Rotterdam, onde ganhou Melhor Filme da mostra Bright Future, e segue para os festivais New Directors/New Films, nos Estados Unidos, e Cinélatino Rencontres de Toulose, na França, entre outros.

Já Mohana vai participar também neste semestre do curta-metragem Rosário, de Igor Travassos e Juliana Soares, que se passa em Casa Amarela. São conquistas que ela valoriza, mas quer ir além. “No meio do audiovisual ainda há muito o estereótipo da mulher negra, sexualizada, do homem negro, bandido. Ainda precisamos evoluir. Você poder sair da sua comunidade para trabalhar com arte amplia sua visão. Você fica mais crítico, mais atento para tudo isso que está acontecendo. E você tenta de alguma maneira, com sua cor, com seu corpo, com sua arte, quebrar essas barreiras”.

Mohana acredita que a igualdade entre gêneros e raças está caminhando, mas ainda é um longo processo. “Ainda precisamos conquistar nossos direitos. Não podemos descansar. Não estamos querendo os privilégios de ninguém, queremos igualdade. Que nossa voz vá adiante. As pessoas estão com sede de falar. A mulher e o negro ainda se sentem subjugados. Temos que ser ouvidos. E depois da fala é importante praticar a ação, senão as coisas não mudam”, conta.

Descoberta no Facebook

Os dois primeiros trabalhos de Mohana no audiovisual foram conseguidos na mesma época e graças ao perfil dela no Facebook. A diretora de casting da TV Globo Marcela Bérgamo tinha um tio de Mohana como amigo na rede social.

“Ela nem pediu indicação ao meu tio, nem nada. Ela só foi passando pelos amigos dele e me viu. Aí mandou  solicitação de amizade, mas como não respondi, ela entrou em contato pela lojinha da minha mãe, que é artesã, no Facebook”, lembra a atriz, que fez os testes para Justiça em seguida.

Antes mesmo das filmagens da série global, Mohana foi indicada por Marcela Bérgamo para atuar no filme Azougue Nazaré. As filmagens levaram um mês, bem a tempo da atriz voltar e gravar Justiça, que teve cenas tanto em Recife quanto no Projac, no Rio de Janeiro.

Mohana também vai participar do curta-metragem Rosário, que se passa em Casa Amarela. Foto: Maria Carolina Santos/PorAqui

Teatro no Morro da Conceição

Menina tímida, Mohana entrou no teatro aos 12 anos pelo programa Crescendo no Morro da ONG Diaconia. Foram dois anos de aulas e apresentações nas ruas da comunidade. “Foi uma autodescoberta, vi que eu precisava ter teatro na minha vida”. Aos 17 anos, antes de entrar na faculdade – ela é formada em Publicidade – fez um curso com o diretor e ator Rogério Costa.

“Sinto muita falta hoje no Morro da Conceição de um projeto como o Crescendo no Morro. Um projeto que possa resgatar e abrir possibilidades para os jovens”, lamenta Mohana