Casa Forte é um local tradicional, histórico e que abrigava engenhos (com as suas casas-grandes e respectivas senzalas) em seu passado colonial. Isso a gente já sabe.

Mas, ainda nos anos 80 e 90, quando começou a expansão imobiliária de arranha-céus no bairro, algumas construções chamavam a atenção pelos nomes que remontam à sociedade escravocrata e proveniente da monocultura da cana-de-açúcar, tão bem descritas pelo antropólogo Gilberto Freyre no clássico "Casa Grande & Senzala", de 1933.

Listamos 8 construções inspiradas na 'Casa-Grande', na cultura canavieira e no antigo regime escravocrata. Um passado presente na Casa Forte moderna e que diz muito sobre como temos de lidar com certas questões entranhadas na sociedade, ainda patriarcal, pernambucana. Veja:

1. Edifício Senzala 

(Reprodução/Anúncio do Diario de Pernambuco)

No anúncio do jornal Diário de Pernambuco dos anos 80, um atributo da venda do apartamento chama a atenção: ele tem "dois quartos de empregada". De imediato, você pensa em filmes como "O Som Ao Redor" ou "Aquarius", do diretor Kleber Mendonça Filho.

2. Motel Senzala

Suíte Pelourinho, Quilombo ou Zumbi? O motel, que fica em Apipucos, bairro irmão a Casa Forte, foi todo criado a partir da simbologia existente nas relações de poder, sexuais e de dominação que os senhores de engenho praticavam há séculos, explorando as escravas.

(foto: Reprodução/Internet)

A decoração, slogan e ambiente do motel até inspiraram um trabalho de conclusão de faculdade, encontrado na Internet. 

(foto: Gabriel Diniz Lima/Flickr)

"Criei o anúncio de forma lúdica, como um exercício de criação, por volta de 2007. Andava muito por Casa Forte e Apipucos, estudava na faculdade Marista. Sempre passava pela frente do motel, e tudo ali me chamava a atenção", conta o webdesigner Gabriel Diniz, criador da peça acima.

3. Edifício Banguê

(foto: Google Street View)

Vizinho ao edifício Senzala, na 17 de Agosto, o nome remete ao romance de 1934, de José Lins do Rêgo (autor do clássico da literatura "Menino de Engenho"). Banguê é o último livro da trilogia que conta a vida de Carlos Melo, personagem de Menino de Engenho e Doidinho.

Após concluir seus estudos e formar-se advogado (como era o sonho de seu avô), Carlos Melo volta a viver no Engenho Santa Rosa, onde encontra o Coronel José Paulino (o seu avô) muito doente e o engenho indo de mal a pior.

4. Edifício Gilberto Freyre

(foto: Google Street View)

O edifício é uma homenagem ao sociólogo na Avenida 17 de Agosto. Em 1936, Freyre também fazia uma crítica maior à decadência do patriarcado no Brasil rural, ocorrida no século 19, com a obra Sobrados e Mucambos

O título é uma referência aos antigos aristocratas, que, com a declínio do regime escravocrata brasileiro, tiveram que se mudar da casa-grande para sobrados em áreas urbanas. Por conseguinte, os ex-escravos também deixaram as senzalas para morarem em casebres de palha e barro em bairros pobres de áreas urbanas.

5. Edifício Engenho Casa Forte

(foto: Google Street View)

O edifício fica na Rua Genaro Guimarães, em Casa Amarela, bairro vizinho a Casa Forte.

O engenho Casa Forte, origem do atual bairro, foi criado em meados do século 16, por Diogo Gonçalves, em parte das terras que lhe foram doadas pelo donatário da Capitania de Pernambuco, Duarte Coelho. Teve vários proprietários sendo chamado sucessivamente de Jerônimo Gonçalves, Isabel Gonçalves, Dona Anna Paes, Tourlon, Nassau, de With e, a partir de 1645, Casa Forte.

O engenho era movido a animais e ficava situado na margem esquerda do Rio Capibaribe, no local depois chamado de Santana, onde era depositado o açúcar fabricado e depois transportado pelo rio para o mercado do Recife.

6. Edifício Canavial

(foto: Google Street View)

Também localizado na Avenida 17 de agosto, o edifício remete ao tema.

7. Edifício Casa Grande de Santanna

Mais uma menção ao nosso passado de Casas-grandes, no coração do bairro nobre, também na 17 de Agosto.

8. Edifício Casa-Grande das Ubaias

Localizado na Estrada das Ubaias, em Casa Forte, o edifício tem um casarão de festas em frente às suas duas torres. 

Pra finalizar, apenas gostaríamos de deixar claro o conteúdo ilustrativo da reportagem nada tem a ver com a forma de pensar dos moradores dos edifícios citados acima.


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