Falar de Casa Forte é também falar de Anna Paes, filha de Jerônimo Paes de Azevedo e Izabel Gonsalves Paes, proprietários de um dos mais importantes engenhos pernambucanos e que deu nome ao bairro da Zona Norte do Recife.

Uma senhora com ideias avançadas para o século 17, conhecida por sua liberdade de pensamento e coragem pessoal, Anna Paes recebeu o Engenho Casa Forte, onde hoje funciona o Colégio Sagrada Família/NAP, como dote depois de se casar com o capitão Pedro Correia da Silva.

Ela ficou viúva aos 18 anos, depois de perder o marido num conflito contra os holandeses que invadiram Pernambuco, em 1635.

O Colégio Sagrada Família ainda preserva a arquitetura do século 17, quando era o Engenho Casa Forte – Foto: divulgação

Para surpresa de todos, Anna Paes provou ser capaz de administrar sozinha um dos maiores engenhos de Pernambuco. Ao contrário de praticamente todas as mulheres da época, ela recebeu uma boa educação dos pais e aprendeu a ler e escrever.

Por causa disso, aprendeu rapidamente a lidar com fornecedores de cana, feitores, escravos e comerciantes, conseguindo manter seu engenho entre os dez mais produtivos de Pernambuco.

Dona do próprio nariz, Anna Paes viveu livremente, quebrando as regras que colocavam as mulheres em condições submissas no mundo luso-brasileiro. Teve uma vida social intensa, trocou de religião, passando de católica a protestante calvinista. Casou-se três vezes, com direito a um grande caso de amor entre o primeiro e o segundo matrimônio.

Herança colonial

Casa Forte era o nome da casa grande onde morava Anna Paes, que hoje se transformou na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, comandada durante 40 anos pelo Padre Edwaldo, o idealizador da Festa da Vitória Régia.

As casas do engenho situavam-se em um grande pátio, chamada Campina de Casa Forte, que no século 20 se tornou o primeiro jardim público criado pelo grande paisagista Burle Max: a Praça de Casa Forte, que hoje é também um polo gastronômico e de lazer.

A Campina de Casa Forte é hoje a Praça de Casa Forte (Foto: Benicio Dias/Arquivo Fundaj)

O Engenho Casa Forte serviu de palco a um episódio histórico: a Batalha de Casa Forte, que marcou a principal vitória dos pernambucanos contra o domínio holandês. O conflito se deu no dia 17 de agosto de 1645, data que serviu de inspiração para a principal avenida que corta o bairro, a Avenida 17 de agosto.

Na frente da igreja do Sagrado Coração, na atual Praça de Casa Forte, encontra-se uma placa que registra o resultado daquele histórico encontro:

Neste local, denominado outrora engenho de Anna Paes, a 17 de agosto de 1645, o exército pernambucano dirigido por VIEIRA, VIDAL, DIAS E CAMARÃO combateu uma coluna holandesa que havia aprisionado matronas pernambucanas e se fortalecido na casa de morada à direita da Igreja, resultando victoria para os libertadores com o aprisionamento completo dos inimigos. Memória do Inst. Arch. e Geogr. Pernambucano em 1918.

Apesar do progresso e da chegada do mercado imobiliário, as marcas do tempo continuam presentes no bairro. Seja nas ruas, na arquitetura colonial e até no nome de estabelecimentos como a delicatessen Engenho Casa Forte, que funciona na Avenida 17 de agosto. A padaria, inclusive, é um dos locais do bairro onde você poder encontrar uma sopa quentinha, além de quitutes, doces e frios.

Engenho Casa Forte é homenageado por delicatessen na Avenida 17 de agosto – Foto: Forsquare

Outro exemplar arquitetônico do Brasil Colônia é o sobrado onde funciona o restaurante Nez Bistrô, criado em 2007 na Praça de Casa Forte e especializado em cozinha franco-italiana. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN, o sobrado funcionou como senzala do Engenho Casa Forte.