Não é à toa que muitos artistas escolheram o bairro de Casa Forte, na Zona Norte do Recife, para morar. Basta andar a pé pelas ruas e praças pra sentir a atmosfera peculiar e a poesia que o bairro transmite.

O silêncio, a paisagem arborizada, o gostinho de interior, a arquitetura e as referências que unem tradição e modernidade são alguns dos fatores que inspiram os nossos artistas casa fortenses. O PorAqui ouviu alguns deles.

Silvério Pessoa – músico e morador de Casa Forte há 15 anos

Há uma semelhança do bairro de Casa Forte com minha vida do interior, que é algo muito forte dentro de mim, da minha música e do meu trabalho. Eu sou da Zona da Mata Norte, de Carpina, e a história de Casa Forte é uma história rural, agrícola. Era um engenho que tinha um caráter de resistência holandesa, toda aquela parte de tensão de oligarquia de cana-de-açúcar.

Você ainda vê casas simples e também casarões suntuosos, a religiosidade das igrejas, a história de Gilberto Freyre em Apipucos, o açude, de onde eu moro eu vejo o Rio Capibaribe quase 180 graus. Ainda tem o Parque Santana, a Praça de Casa Forte.

Sou muito caseiro e Casa Forte ainda traz essas características de ser um bairro mais reservado, sem grandes manifestações urbanas. Hoje a gente tem um comércio que ladeia todo o bairro, mas ainda é um comércio discreto. Mesmo com toda a invasão do mercado imobiliário, ainda temos um silêncio característico do engenho e da usina. Isso passa muito pra minha música, pro meu caráter, eu tenho uma questão interior muito parecida com o bairro.

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Luzilá Gonçalves – escritora e moradora do Poço da Panela há mais de 50 anos

Foto: Costa Neto/Secult-PE

Antes tão quieta e bela, a minha rua agora é uma passagem para automóveis que se servem dela como se estivessem numa BR. Uma pena. Por outro lado, o bairro conserva uma época sem violência, que guarda vestígios dos poemas de Olegário Mariano, de dona Olegarinha, que escondia escravos. Quando leio Os Azevedos do Poço,  Mário Sette, me transporta aqueles tempos.

Conservo umas vinte árvores frutíferas no quintal, cujos frutos distribuo com vizinhos: cajás, carambolas, mangas, cajus. Ainda tem bananeiras, jaqueira, acerola, ingá, jambo, acredita?  Fruta pão e jenipapo, que só servem para enfeitar. E há os bichos: umas vinte galinhas, três cachorros, uma família inteira de saguis. E há muito verde, que cultivo com carinho. Onde mais no Recife se pode desfrutar de tanta beleza?

Bruna Valença – fotógrafa e moradora do Poço da Panela há 4 anos

Foto: divulgação

O Poço da Panela é um lugar que sempre me trouxe muita paz, tem uma energia muito diferente. É um respiro, sabe? Atualmente, é tão difícil circular em um bairro que não tem quase nenhum prédio, com casas antigas e cheias de histórias diferentes. Eu ando na rua e eu conheço as pessoas, elas têm uma história.

Definitivamente, o Poço tem uma frequência sonora diferente. Tem dias super barulhentos, crianças brincando, alguém tocando piano. E tem dias que é um silêncio total. É bem inspirador. Curto muito ir à Praça de Casa Forte, sentar ali, conversar. É um pedacinho na Zona Norte que eu acho muito especial, pois você ainda sente muita história pulsando ali.

Manuel Dantas Suassuna – artista plástico, cenógrafo e morador de Casa Forte há 56 anos

Foto: Lucas Oliveira/divulgação

Quando eu saio pra caminhar na Praça de Casa Forte, que é um lugar que eu gosto muito, eu sinto que as pessoas que se criaram no bairro têm muito orgulho disso. Num certo momento, a paisagem de Casa Forte influenciou muito o meu trabalho, a questão dos casarios, da história, são coisas que sempre me encantaram.

O nome Casa Forte é uma referência histórica à ocupação da luta contra os holandeses. A Avenida 17 de Agosto tem esse nome porque é a data da batalha. Tudo é muito simbólico. Embora eu sinta falta das memórias das casas que eu via quando era jovem, o bairro ainda preserva uma aura especial.