Muitas mulheres violentadas por vizinhos ou pessoas próximas tendem a permanecer em segredo. É mais fácil silenciar quem está com medo e mora ao lado. Infelizmente a denúncia contra contra parceiros ou conhecidos muitas vezes termina por agravar a violência. Isso porque a denúncia não é acompanhada de proteção, por meio de medidas previstas, por exemplo, na Lei Maria da Penha. O medo termina tomando conta e paralisando a vítima.

É por isso que o PorAqui, plataforma de histórias e notícias hiperlocais e colaborativas, convida mulheres a compartilharem relatos de violência com a hashtag #omachismomoraaolado. A voz feminina não pode nem deve se calar. O convite é também para que os homens reflitam e pensem junto.

Você pode compartilhar o seu relato nos nossos comentários, no seu próprio Facebook/Instagram/Twitter com a nossa hashtag (#omachismomoraaolado), por mensagem na nossa página, por e-mail (colabore@poraqui.news) ou no nosso WhatsApp (81 98173.9108). Caso escolha compartilhar por mensagem/WhatsApp/e-mail, podemos garantir o seu anonimato.

Quando era jovem, tinha um vizinho que me perseguia e ficava secando minha janela de forma abusiva. Passei anos sem poder ABRIR a cortina, ele estava sempre lá, pendurou um espelho na grade da área de serviço que dava vista pra minha janela e fingia estar se barbeando a qualquer hora do dia. Um dia ele conseguiu umas infos sobre a minha vida com uma amiga vizinha inocente. Tocou o interfone e disse que queria falar comigo sobre "jornalismo" (e me assustou como ele sabia o que e onde eu estudava), Não desci. Tinha 18 anos e a forma que eu consegui me "defender" naquela época foi dizer que meu namorado daria uma surra nele se ele tentasse se aproximar de mim de novo. Meu namorado, minha família e muita gente dizia pra eu relaxar, que ele era um inofensivo vizinho gente boa. Foram anos infelizes, morar ali pra mim era um suplício e eu me achava louca pela ameaça constante que eu sentia. #omachismomoraaolado – Geisa Agricia, jornalista.

Tássia Mirella – O comerciante Edvan Luiz, 29 anos, foi autuado em flagrante por homicídio triplamente qualificado pela morte da fisioterapeuta Tássia Mirella, 28 anos. Ele é acusado de assassiná-la dentro de uma flat em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, na quarta-feira, 5 de abril. O caso aconteceu num bairro nobre, ganhou ampla repercussão na imprensa e nas redes sociais. Mas ele é um entre milhares. É um entre tantos outros que são silenciados, sobretudo em bairros periféricos.

Edvan é a representação da violência que cotidiana e historicamente machuca e mata mulheres em todo o mundo – dentro do lar, no condomínio, no elevador do prédio, nas comunidades, na padaria do bairro, na rua de casa. 

Números – Somente em Pernambuco, 50.042 mulheres foram agredidas em 2016. São 1.205 casos a mais do que em 2015. Nos meses de janeiro e fevereiro de 2017, 58 mulheres morreram vítimas de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) no Estado. O número da pela Polícia Civil não representa os casos de feminicídio, já que seria preciso ter o recorte da motivação dos crimes. Em 2016, foram 280 mortes. Em 2015, foram 245; em 2014, 249; em 2013, 253.

Em nota, a polícia destaca que o Departamento de Polícia da Mulher (Dpmul) começa a investigar os casos de mortes de mulheres relacionados à condição de gênero, que antes ficava a cargo, exclusivamente, do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP). A delegada Gleide Ângelo, escolhida pela experiência  na resolução de homicídios, foi nomeada nesta sexta-feira (7) como a nova gestora do departamento.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que, no Brasil, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima. A cada hora e meia, uma mulher é assassinada por um homem, num total de 13 feminicídios por dia. A taxa é a 5ª maior do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), de 4,8 para 100 mil mulheres. 

Confira aqui o dossiê Violência Contra as Mulheres, no site da Agência Patrícia Galvão.

Análise – "Há um conjunto de valores relacionados a ser mulher e ser homem que são parte do nosso sistema patriarcal de gênero, que orienta o nosso comportamento e legitima ideias e práticas relativas à maneira como interagimos. De forma muito simplificada, se trata do sistema de valores amplamente discutido nas redes sociais que legitima o poder dos homens sobre as mulheres, inclusive para agredir e matar", Ana Paula Portella, doutora em sociologia pela UFPE.

(foto: reprodução vídeo do cineasta Pedro Severien)

Ana Paula indica buscar ajuda na rede de apoio às mulheres vítimas de violência, centros de referência para aconselhamento, Delegacia da Mulher, patrulha Maria da Penha, entre outras referências. Detalhe: são apenas 10 delegacias especializadas no Estado.

O coletivo feminista de intervenção urbana Deixa Ela em Paz reforça que "crime passional" não existe, o que existe é "feminicídio" – e, sobre Edvan Luiz, não importa se é o vizinho ou um ex-namorado. 

O coletivo manda o recado: Ao ex que não desiste de ligar de madrugada; ao fofo que acha que, já que pagou o jantar, merece pelo menos uns beijinhos; ao que se faz de surdo quando ouve um “não"; ao querido que acha que mulher tem que se dar o respeito; ao galã que coloca a etiqueta “pra casar” x “pra pegar"; ao que assovia, sussurra e “elogia” na rua; à moça que mede o comprimento da saia alheia; à revista que ensina 100 maneiras de enlouquecer um homem na cama e como conquistar um corpo digno do verão; aos que rotulam, calam, discriminam, diminuem, interrompem, menosprezam ou tratam como louca: #deixaelaempaz.


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