É em um belo casarão pintado de branco na Rua Dr. Virgílio Mota, 71, em Parnamirim, que o artista Ricardo Cavani Rosas escolheu ter seu ateliê após mais de 20 anos sem um espaço de trabalho aberto ao público. Desde o começo do mês, quartos e salas do imóvel recebem quadros, esculturas e livros, cartazes e outras obras do acervo do artista, que também passou a morar no local.

Não houve inauguração. A ideia de Cavani Rosas é deixar que as pessoas cheguem ao local de forma espontânea, com tempo para se deter nas obras. “Muitas pessoas não vão aos ateliês por que acham que vão ter que comprar alguma coisa. Não precisa: o ateliê está aberto, as pessoas podem vir”, convida, lembrando também que a lojinha do espaço vende reproduções a partir de R$ 50.

Cavani encontrou a espaçosa casa quando voltou de uma temporada no Rio de Janeiro e foi morar no bairro de Parnamirim. “Aluguei um escritório na Estrada do Encanamento e todo dia eu passava por aqui. A casa já estava fechada há um ano, mas quando cheguei nessa sala (onde hoje funcionam as aulas) eu disse: é esse o lugar”.

Esculturas de Cavani Rosas em uma das salas do ateliê. Foto: Maria Carolina Santos/PorAqui

Não há placa na casa, mas duas esculturas deixam bem claro que ali vive um artista.

Autodidata, Cavani Rosas começou a desenhar aos cinco anos de idade. Aos 17, fez sua primeira exposição solo, na Academia Pernambucana de Letras. Chegou a cursar Arquitetura, mas percebeu cedo que não era aquilo que queria.

Por dentro da casa-ateliê do artista Joelson Gomes, no Poço da Panela

“Eu ia para biblioteca e ficava estudando os livros de arte”, relembra. Foi ilustrador do Diario de Pernambuco e depois seguiu para São Paulo, onde trabalhou na Folha de S. Paulo por três anos e teve ilustrações suas publicados em diversas publicações.

Como artista, desenvolveu uma técnica única de desenhar “pontinhos” utilizando bico de pena.

Escultura no jardim do ateliê. Foto: Maria Carolina Santos/PorAqui

Paixão por detalhes

Na longa temporada em São Paulo (ao todo, 18 anos), Cavani se dedicou também ao desenho científico. São deles ilustrações em vários livros técnicos de medicina. Trabalhou no Instituto de Biociência da Universidade de São Paulo (USP) e no Instituto Butantã.

Nesses dois lugares, produziu ilustrações belíssimas e cheias de detalhes de animais e plantas. Ao desenhar um tubarão, chegou a levar partes de um exemplar dissecado para casa.

Um casarão dedicado à arte e à cultura na Av. 17 de Agosto

“O tipo de meditação que eu faço também exige que eu tenha um conhecimento de anatomia comparada. Como é um outro ser…serpentes, peixes, plantas. Ajuda muito, realmente”.

A paixão por anatomia também fez com que ele acompanhasse uma cirurgia – era a retirada de um tumor da bacia -, para perceber melhor o corpo humano por dentro.

Tubarão em desenho científico de Cavani Rosas. Foto: Reprodução do Facebook do artista

Os detalhes o perseguem mesmo quando não se trata de ilustração científica. Os bares e restaurantes que ele desenha, por exemplo. A riqueza de detalhes é assombrosa: vai do paninho deixado em cima do balcão a uma tecla em uma antiga caixa registradora.

Desenho “A Porta”, feito com bico de pena, faz parte de uma série que homenageia Bajado. Foto: Maria Carolina Santos/PorAqui

Nada pode ficar de fora. “Primeiro eu vou no local e faço o desenho geral. Gosto de começar a desenhar no próprio local. Depois eu faço fotos dos detalhes para desenhar depois. Nada é criado, gosto de ser fiel aos locais”, conta.

Até mesmo desenhos de situações inventadas, como esse desenho do antigo bloco A Porta, são repletos de pequenos detalhes que não podem ser deixados de lado. “Faço tudo do jeito que imaginei”, diz.

Meditação e cores

O preto e branco que domina os desenhos de Cavani Rosas têm dado espaço ultimamente para um colorido vivo e brilhante em pinturas. “Estou caminhando para o abstrato. Quando eu faço meditação eu vejo muitas luzes e cores. Estou tentando chegar lá”.

Aos 65 anos, Cavani Rosas não pensa em diminuir o ritmo de produção, mas sim em conquistar um sonho: o de fazer uma grande exposição no Rio de Janeiro. “Passei ao todo 18 anos em São Paulo, mas no Rio de Janeiro eu nunca consegui emplacar. Lá, você sai de casa e só vê beleza: as paisagens, as pessoas, tudo é bonito”.

Até uma possível futura exposição no Rio, Cavani segue com vários projetos no Recife. Além do novo ateliê e das aulas, está envolvido em uma revista em quadrinhos, no cenário de um desenho animado de Olímpio Costa e terminou recentemente uma obra para uma faculdade privada.

Sala onde são realizadas as aulas. Foto: Maria Carolina Santos/PorAqui

Aulas

Nas terças e quintas-feiras, Cavani Rosas dá aulas de desenho no ateliê. Para adultos, há horários pela manhã (9h30 às 11h30) e à noite (19h às 21h). À tarde, aulas para crianças e adolescentes (a partir de 8 anos), das 15h às 17h. Os valores mensais variam de R$ 350 à R$ 430. O curso básico dura cerca de quatro meses.

Serviço
Rua Dr. Virgílio Mota, 71, Parnamirim
Horário de visitação: De segunda a sexta-feira, das 8h30 às 17h30
Mais informações: 9 9765-1895