“Eu digo que sou graduado em arquitetura e urbanismo e pós-graduado pelos pés, porque eu já andei uns 10 mil quilômetros pelo Recife. Mudei completamente minha percepção da cidade por causa das caminhadas”, diz o consultor de empresas Francisco Cunha,  morador de Parnamirim, bairro irmão de Casa Forte, na Zona Norte do Recife.

Militante e adepto assíduo das caminhadas no dia a dia, ele criou o primeiro movimento sistematizado do Recife que defende a mobilidade sob a ótica do pedestre. “Trânsito não pode ser sinônimo apenas de veículo motorizado. Quando se pensa em mobilidade, a gente deve pensar em toda as formas de locomoção. Ainda mais no bairro de Casa Forte, que é um bairro que convida a andar, ele foi feito pra isso. Quanto mais ‘caminhável’ o bairro for, mas ele é habitado. Só que as pessoas atualmente só raciocinam com carro, é impressionante”, critica.

Atualmente, Francisco promove duas ações temáticas nesse âmbito: a Caminhada Domingueira, que acontece uma vez por mês, e o projeto Olhe pelo Recife Cidadania a pé, pelo Observatório do Recife (ODR). A ideia, segundo o morador, é juntar as duas iniciativas e torná-la uma só.


Registro de caminhada na Praça de Casa Forte

O roteiro das caminhadas passa por vários bairros e é divulgado com antecedência numa página secreta do Facebook, que atualmente conta com cerca de 600 pessoas. As caminhadas costumam acontecer das 8h às 12h, incluindo paradas durante o percurso para fazer observações sobre o entorno e discutir iniciativas e melhorias para fortalecer a ‘caminhabilidade’ do Recife.

Os encontros costumam reunir pessoas de todas as idades e seguem um roteiro temático, que inclui referências históricas do percurso. Quem quiser participar dos encontros, Francisco pede que entre em contato pelo seu Facebook ou Instagram.

Convivência

“Meu empenho em discutir essa questão é ajudar as pessoas a entenderem que o bairro é, por natureza, um lugar de convivência. A gente não vai conseguir fazer isso de carro. Quando você entra no carro, você fica fora da cidade, protegido, é come se fosse uma cápsula. Esse entendimento é difícil”, analisa.

“Nenhuma cidade é boa se não é ‘caminhável’ e a gente esqueceu isso ao longo dos tempos. Temos a AMECICLO, que defende a mobilidade do ponto de vista dos ciclistas e não faltam órgãos de trânsito pra defender os carros. Mas ninguém pensa no trânsito como movimento de pedestres.”

Casa fortense de coração

“Nas caminhadas, procuro sempre passar por Casa Forte, que é o meu bairro de preferência”, diz Francisco. “Além de ser o quintal da minha infância, Casa Forte é um dos últimos redutos da parte urbanizada do Recife onde você consegue entrar numa porta do tempo, acessar uma época que ainda tem um resguardo.”

Francisco tem um engajamento forte com as coisas daqui. Ele também participa do grupo de segurança comunitária Casa Forte mais Seguro e é um grande frequentador e defensor da Praça de Casa Forte.


Praça de Casa Forte – Foto: Francisco Cunha

“O bairro só existe por conta da Praça de Casa Forte. Ela é o coração do bairro e por isso a gente tem que tomar todo o cuidado com ela. Porque a praça é um local  que faz parte da História do Brasil. A Batalha de Casa Forte foi a segunda batalha contra os holandeses no país. Ela é também um monumento mundial, o primeiro jardim público de Burle Marx, ou seja, um espaço verde preservado, o que é difícil de existir no Brasil. Só por isso, já merece toda atenção. Tudo que acontece nela termina se irradiando para o resto do bairro. Preservá-la é preservar a essência do bairro”, defende.

Falando nisso, você já deu uma olhada no Manifesto Viva o Seu Bairro, lançado pelo PorAqui?