Por Cezar Martins* 

Para a minha surpresa e de muitos, no último sábado (29), tivemos um evento carnavalesco de grandes proporções em plena Zona Norte do Recife. Tudo começou na rua e terminou num terreno com um mega palco armado no cruzamento da Rua da Harmonia com a Estrada do Encanamento. 

(foto: Cezar Martins/Facebook)

O palco, virado de costas para o Parnamirim, onde moro, apontava suas caixas de som para casas residenciais 50 metros à sua frente, para o morro de Casa Amarela, para os prédios de Casa Forte e para as casas de centenas de milhares de pessoas. 

Eu, que moro 400 m atrás do palco, saí de casa às 20h30 agradecendo por ser uma noite planejada fora de casa, dado o volume do som (e entendo completamente as reclamações de vários moradores dos bairros vizinhos). 

O evento, fechado, e custando algo em torno de R$ 200 (ou mais, de última hora), trouxe para um bairro residencial um resultado de perde-perde para muita gente. Se perdeu no sossego e se perdeu por ser um evento privado, que não pode ser usufruído por quem quiser. 

Nas ruas, o cordão de isolamento acompanhou um trio elétrico na Estrada do Encanamento, começando na frente do Bar do Marujo, logo após o almoço de sábado, entre 13h e 14h.  Oferecia segurança contra o quê? Quem estava fora do cordão não teve problema algum com segurança. 

(foto: Cezar Martins/Facebook)

No fim das contas, o cordão era para limitar fisicamente quem podia pegar cerveja e, principalmente, quem teria o conforto do espaço interior ao cordão caso lotasse o espaço público fora dele, o que nem de longe aconteceu. O cordão era exatamente o que é em Salvador: o espaço privado se movendo no espaço público – pago, exclusivo, excludente. 

Isso não é nada parecido com o nosso Carnaval. Nossos tempos de cordão de isolamento e mamãe-sacode caíram no esquecimento, ficaram no passado. Nosso Carnaval de rua é caracterizado por ser democrático, livre para quem quiser usufruir. Sempre tivemos os bailes e os eventos privados, mas eles nunca invadiram o espaço da rua.

Finalmente, do meio para o final da tarde, o evento privado móvel se fixou no citado terreno e, com o máximo de volume, tocou vários hits do axé e de outros ritmos do momento por mais algumas horas. Não podemos comparar tal evento antidemocrático com as nossas já tradicionais prévias da cidade, públicas ou privadas. O volume do som dos blocos da Zona Norte é uma pequena fração do barulho que tivemos no sábado, além de serem acessíveis para qualquer um. 

Mesmo os eventos privados, como o Carvalheira na Ladeira, o Guaiamum Rural, o Enquanto Isso na Sala de Justiça, o Baile do Eu Acho é Pouco, são realizados em locais apropriados, alguns deles com a renda revertida para o custeio da(s) saída(s) do respectivo bloco no Carnaval.

(foto: Cezar Martins/Facebook)

Uma festa privada, inacessível para boa parte da população, e o jogo de perde-perde continuou para quem não estava dentro do cordão: várias árvores da Estrada do Encanamento foram drasticamente podadas às vésperas do evento, pela segunda vez em pouco tempo, aparentemente para que o trio elétrico pudesse passar no início da Estrada do Encanamento, conhecida por árvores frondosas inclinadas para o meio da rua. Guardas da CTTU e orientadores de trânsito iam organizando o trânsito para que o trio passasse. 

Enquanto isso, um amigo esperava por uma hora e meia na parada, pois seu ônibus estava atrás do trio, já que nenhum roteiro alternativo foi feito para as linhas no dia da festa nem nenhuma informação foi dada ao usuário – nem mesmo com panfletos informativos colados nas paradas. 

Pedestres e ciclistas se viraram como puderam, como sempre foi, desviando da multidão e do  cordão de isolamento. A única preocupação do poder público foi o trânsito do trio elétrico e ao redor do palco.

Quando temos uma festa preparada para uma quantidade limitada de pessoas, tirando o sossego de bairros inteiros, não dando a essas pessoas nem a chance financeira nem de espaço de participar da folia, não podemos chamar isso de Carnaval – nem mesmo de prévia carnavalesca.

*Cezar Martins é advogado, servidor público e morador do Parnamirim, bairro vizinho a Casa Forte

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