Uma casa arejada, cercada de tranquilidade, com muitas plantas, cachorro, quintal e histórias que se confundem com as do próprio bairro. Assim é a residência e ateliê do artista plástico Joelson Gomes, na Rua dos Arcos, Poço da Panela, Zona Norte do Recife.

Há quase 20 anos residindo no bairro, Joelson faz do seu lar um espaço alternativo para o circuito das artes visuais no Recife. Batizada de A Casa Simples, o local já foi palco de diversas exposições, lançamentos de livros, instalações e traz, em todos os espaços, uma poética pautada na simplicidade.


A Casa Simples – Foto: Hassan Santos/divulgação

Vasos de cerâmica, mobiliários, esculturas e pinturas espalhadas pelos cômodos e jardim resgatam o contato com experiências estéticas esquecidas, transformando objetos do cotidiano em obras de arte. Entre as matérias-primas mais utilizadas por Joelson estão o barro e os fios de plástico, conhecidos popularmente como espaguete, que ele utiliza sobre estruturas de ferro.

Mostra

Parte desse trabalho pode ser visto atualmente na exposição coletiva A Casa Simples – Arte Cotidiana, em cartaz no localA mostra é resultado de uma residência artística de um ano realizada por Joelson junto com os artistas Hélio Pelegrino (MG), Mana Bernardes (RJ) e Maurício Castro (PE), com incentivo do Funcultura.

As peças de Joelson também carregam toda a sua experiência com mestres artesãos das cidades de Tracunhaém e Bezerros, na Zona da Mata de Pernambuco, e no Brejo da Guabiraba, subúrbio da Região Metropolitana do Recife, onde ele busca suas matérias-primas.

Exposição “A Casa Simples – Arte Cotidiana”- Foto: Marina Suassuna/PorAqui

“Me interessa muito esse conceito que ele criou de A Casa Simples como uma forma das pessoas vivenciarem as coisas mais essenciais. É um mergulho em coisas simples e que nem por isso deixam de ter a sua complexidade e a sua profundidade”, reflete o artista visual Maurício Castro, que também participa da exposição coletiva.

“A maneira de eu tratar esse espaço como Casa Simples é muito antiga. Mas foi com essa exposição que eu consegui oficializar realmente a proposta dela, já que o projeto leva o nome da casa”, explica Joelson.

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Relação com o bairro

“Eu vim pra o Poço da Panela há uns 20 anos por causa de um ateliê que vagou na Rua Luiz Guimarães. Sempre fui louco por esse bairro. Quando eu vim pra cá, eu era completamente alucinado por morar aqui. Fiz exposições muito legais, fazia festa de São João”, conta o artista, que hoje se mostra desanimado com as mudanças no bairro.

“Eu ainda caminho muito pelo bairro, mas não participo tanto dele como antes. As mudanças são assustadoras. Não tinha esse movimento dos carros, que é uma coisa que enche o saco. O lixo cresce proporcionalmente aos carros e os forasteiros também, que são as pessoas que vem para o bairro e não conseguem assimilá-lo, não estão inseridos e nem percebem os códigos. É aí que reside o equívoco.”

“Quem chega aqui precisa se perguntar qual é a lógica de estar no Poço da Panela. É caminhar, contemplar, pegar uma bicicleta e ir andar. Além da quantidade de carro, essas construtoras horrorosas estão tirando os espaços de lazer das pessoas e deixando os moradores cada vez mais acuados”, critica.