As marcas do tempo em Casa Forte, na Zona Norte do Recife, não passam despercebidas. Além de toda a carga histórica que permeia o bairro até hoje, seja pelo nome inspirado no Engenho Casa Forte, de Anna Paes, pelos resquícios dos tempos da Casa Grande e senzala ou pela tradição que ainda pulsa na sua paisagem, o bairro também abriga exemplares importantes de meios de transportes do século passado. São peças preciosas, que devem ser tratadas com cuidado e respeito, já que estão ligadas à história política e social da cidade e do Nordeste.

Ao passar pela Avenida 17 de Agosto – que, por sinal, ganhou esse nome em referência a um grande fato histórico – é possível ver de longe um exemplar de um bonde elétrico que fica no jardim do Museu do Homem do Nordeste. A peça faz parte da memória visual e afetiva de quem se criou pelo bairro.

O veículo foi o último bonde a funcionar no Recife nos anos 1960. Ele era responsável pela ligação com o Prado desde a década de 1940, mas passou a funcionar do Parque 13 de Maio ao Fundão, até 1960. Quando chegou ao Muhne em 1983, por procedência da Celpe, recebeu a placa de Apipucos, em homenagem a Gilberto Freyre, que na época morava no bairro vizinho de Casa Forte.

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Foi Gilberto Freyre que fundou, em 1979, o Museu do Homem do Nordeste, que é  ligado à Diretoria de Memória, Educação, Cultura e Arte da Fundação Joaquim Nabuco, órgão vinculado ao Ministério da Educação. O Muhne é um dos mais importantes museus antropológicos do Brasil, com um vasto campo de pesquisa histórico-social, além de dispor de um acervo de aproximadamente 15 mil peças de caráter histórico, etnográfico e antropológico.

Além do bonde elétrico, estão expostos no jardim da instituição uma locomotiva da década de 1940, que pertencia à Usina Santa Terezinha e um locomóvel do fim do sécul0 19. Veículo a vapor, o locomóvel era utilizado como fonte móvel de energia elétrica. O exemplar histórico veio da usina paraibana de Santa Rita.


Locomotiva Santa Terezinha – Foto: acervo/Fundaj

Outra relíquia que merece atenção no jardim do Museu é a jangada da década de 1970. Com ela, jangadeiros cearenses tiveram o curso de suas vidas alterado depois de uma viagem ao Rio de Janeiro, onde encontraram o presidente Emílio Garrastazu Médici, em pleno regime militar, para reivindicar os direitos dos pescadores.

Lá, conversaram informalmente com o presidente, contando suas aventuras e o presentearam com a jangada. Médici elogiou o feito e mostrou-se atencioso às reivindicações, concedendo a aposentadoria aos pescadores. O então presidente doou a jangada ao Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, em novembro de 1972. Onze anos depois, a peça foi enviada ao Museu do Homem do Nordeste e assim faz parte do acervo da instituição junto com dois remos, um âncora e uma vela, desde abril de 1984.


Foto: acervo/Fundaj

Atuais condições

Atualmente, os veículos estão passando por um processo de recuperação e restauração física e simbólica. Além de recuperar os equipamentos dos processos erosivos, o trabalho pretende fazer um resgate dos materiais originais, da história da fabricação e das primeiras impressões decorrentes da relação humana com os veículos.

Para o restaurador Toninho Sarasá, profissional da área há mais de 30 anos e responsável pela recuperação das peças, é importante que os veículos não sejam vistos apenas como algo decorativo. “É necessário que se transmita às gerações as cargas de significado e afeto que esse patrimônio detém. Precisamos 
levar em conta o papel do ser humano no processo histórico e da relação afetiva desses equipamentos com a população, para que as pessoas se apropriem dele”.


Foto: Gil Vicente/Fundaj

Parte do acervo do Museu do Homem do Nordeste também pode ser visto na exposição de longa duração – Nordeste: territórios plurais, culturais e direitos coletivos – que foi renovada em março deste ano. A entrada custa R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia). Aos domingos, a entrada é gratuita.

?Museu do Homem do Nordeste
?Avenida 17 de Agosto, 2187, Casa Forte
?Segunda a sexta, das 9h às 17h; sábados, domingos e feriados, das 13h às 17h
☎(081) 3073-6340
Facebook: Museu do Homem do Nordeste
Instagram: @museudonordestedohomem