Era um desejo antigo. A construção de uma ponte entre o bairro da Iputinga e o bairro do Monteiro, reduzindo um arrodeio de até nove quilômetros em apenas 280 metros. As obras começaram em 2012. Seis anos depois, com orçamento de mais de R$ 50 milhões e nada de ponte. E, talvez, esse projeto tenha que ser todo refeito – se um dia for mesmo sair do papel.

O emaranhado de nós que cerca a ponte – do empréstimo ao Banco Mundial à engenharia do projeto em si – está sendo desenrolado aos poucos pelo Ministério Público Federal, que conduz as investigações desde 2016, já que o Governo Federal foi o avalista do empréstimo que a Prefeitura do Recife fez para a obra.

“Foram identificadas uma série de negligências de ordem técnica na execução que podem comprometer o andamento dessa obra”, diz o procurador João Paulo Holanda de Albuquerque, responsável pelas investigações.

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Depois de esperar meses para que a Autarquia de Urbanização do Recife (URB) enviasse os documentos solicitados, agora o procurador se debruça na análise de contratos, relatórios e projetos. “Identificamos que o empréstimo para a obra não foi só com o Banco Mundial. E que houve um distrato deste empréstimo”, afirma o procurador.

A obra, que deveria durar 18 meses, começou em março de 2012. Estava orçada em R$ 42,8 milhões. Depois, foi reajustada em mais de R$ 53 milhões.  A construção parou em 2014, quando apenas um terço estava concluído, grande parte do lado da Iputinga.

O projeto original previa impacto em 23 ruas dos dois bairros, o deslocamento de mais de 1.500 famílias da Iputinga e do Monteiro, além da demolição da Escola Estadual Silva Jardim. Ao longo dos anos, o projeto teria mudado e a escola não teria mais que ser retirada do local – somente uma parte dela.

Terreno de prédio será investigado

Ao tomar conhecimento da construção do prédio Hilson Macedo, da construtora Moura Dubeux, nas cercanias de onde a ponte seria construída, o procurador João Paulo Holanda de Albuquerque afirmou que vai solicitar informações à URB se o terreno estava ou não entre os que seriam desapropriados por conta da ponte.

Em nota, a construtora Moura Dubeux  afirma que o proprietário do terreno doou parte da área para a Prefeitura do Recife por conta da construção da ponte.

Área verde, no topo da imagem, é onde o edifício da Moura Dubeux será construído. Foto: Google Maps

“Recentemente por determinação da Prefeitura o projeto foi modificado para possibilitar ajuste no sistema viário próximo a ponte que ligará os bairros da Iputinga, na Zona Oeste da cidade, ao Monteiro, na Zona Norte. Para essa adaptação, foi necessária a doação de parte do terreno ao município, em acordo realizado entre os proprietários do terreno e a Prefeitura. Após essa resolução, a Moura Dubeux  foi convidada pelos proprietários para realizar o empreendimento”, diz nota enviada ao PorAqui.

O PorAqui entrou em contato com a URB, por meio da assessoria de imprensa, mas não obteve respostas nem sobre o projeto da ponte, nem se o terreno do prédio seria ou não utilizado para alguma obra ou nova via. O PorAqui então abriu uma solicitação por meio da Lei de Acesso à Informação e aguarda a resposta.

Moradores da comunidade que fica exatamente atrás de onde será construído o prédio afirmam que a Prefeitura do Recife nunca apareceu por lá para fazer a desapropriação. “Só falaram com o pessoal da rua atrás da escola. Mas mesmo assim faz muito tempo e acho que ninguém saiu. E se saiu, já tem outra família no lugar”, diz Roberto dos Santos.

Roberto e tantos outros moram em uma ocupação no pé da ponte da Misericórdia, acesso improvisado em cima de uma tubulação que une a Iputinga ao Monteiro. Nessa ponte, capenga, só passam pedestres, bicicletas e motos, às vezes tendo que pular entre as frestas das placas de concreto. É a única ponte que existe.