Desta sexta-feira (10) até domingo (12), o PorAqui publica uma pequena série com depoimentos de moradores de Casa Forte e do Poço da Panela sobre a violência e o medo que tomaram conta das localidades.

A moradora que deu o depoimento que você vai ler agora preferiu não se identificar por questões de segurança

Essa onda de violência só piora tudo aquilo que já sinto faz muito tempo. Na minha família, já tive o meu pai baleado dentro de casa, uma prima assassinada numa briga banal de trânsito, não é brincadeira.

Desde os meus 11 anos venho sendo assaltada nas ruas do Recife: indo pra escola, no Espinheiro, nas Graças, na Agamenon Magalhães. Não saio mais à noite (praticamente nunca), morro de medo de parar em sinais, no portão do prédio. Esperar na rua, então, nunca. 

Aquele assalto no Poço mês passado foi na rua em que morava – lá não tem iluminação, a segurança é zero, entregue. Somos todos prisioneiros nesta cidade. 

Meu filhos já foram assaltados nas ruas (um deles tem 11 anos e o outro, 19), três vezes, em lugares de movimento, em plena luz do dia. Um deles foi ameaçado, agredido, triste… Uma vez na Rua da Hora, outra na Avenida 17 de Agosto e outra no Parque Santana (nesse último assalto foram cinco homens que chegaram – e só não foi pior porque um pai de um outro menino chegou junto, mas a polícia nem apareceu).

Eu sou aterrorizada e sei que isso assusta eles também, mas oriento muito: se algo acontecer, fiquem calmos, obedeçam. Eu prometo protegê-los, mas a minha pequena mesmo tem sonhos e medo de alguém entrar em casa.

O meu filho do meio não sai nem na calçada, outro dia o pai deixou e eu dei um escândalo.

A gente só sai na rua sem bolsa e com o celular do ladrão. Que vida é essa? Sem liberdade, desigualdade do cão, fim do mundo mesmo.

Entraram aqui no prédio outro dia e levaram uma bicicleta, só viram depois pelas câmeras de segurança.

A sensação é de estar numa fila esperando a sua vez. De novo e de novo.

Acho que o que precisa ser feito para mudar essa realidade pelo poder público e sociedade civil é fornecer mais segurança e mais projetos sociais nas comunidades. Tirar essas crianças das ruas e colocá-las para aprender algo massa, empreender, brincar, comer e estudar.

Segurança, iluminação e câmeras são paliativos, mas não curam a causa.

São muitas as causas, mas essas das diferenças, da falta de acesso ao básico, do uso de drogas e da falta do que fazer (sem trabalho e estudo) são as maiores para mim.

Agora, no momento, faz-se urgente segurança, policiamento eficiente, mas também não temos, por isso anda todo mundo preso e aterrorizado.

Atualmente vivemos um 'pacto pela morte' em Casa Forte, né?

Quando é que vão aprender que precisam investir nas pessoas para haver, de fato, a transformação social?


O jornal de bairro evoluiu. No PorAqui, você encontra estações de conteúdo hiperlocal e colaborativo.

Para baixar o aplicativo: Android iOS

Sugestões e colaborações: casaforte@poraqui.news