“Quando era criança, meu sonho era ter um banheiro. Eu usava o do vô. Quando entrei no programa, meu sonho era ganhar. Todo dia é um sonho diferente. Hoje, é ser mãe e abrir minha pousada numa praia ou interior”, lembra e idealiza a chef Mirna Gomes (37), nascida em São Paulo, mas criada desde os primeiros meses de vida no bairro do Córrego do Jenipapo, no Recife.

Participante da segunda edição do Masterchef Profissionais, programa exibido pela emissora Band, Mirna vive um sonho de cada vez. Atuava profissionalmente na cozinha há apenas quatro anos, antes da sua participação na televisão. “Todo mundo se conhecia e eu não sabia quem eram aquelas pessoas. No primeiro dia achei que ia desmaiar quando vi os jurados. Tinham umas 150 pessoas ao redor”, recorda sobre os contatos iniciais.

Mirna e Paola Carosella | Foto: Divulgação/Band

Apesar da fama recém-adquirida, a chef não teve uma carreira convencional no universo estrelado da gastronomia. Desde criança, junto ao seu irmão, ajudava a mãe no fogão. Aprendeu a cozinhar com ela, mas não conseguia estudar e tinha dificuldade de concentração. Concluiu o ensino médio na escola Dom Bosco, no bairro de Casa Amarela. Ao término, com 19 anos, trabalhou num açougue local, mas foi em Porto de Galinhas, litoral Sul de Pernambuco, que sua vida profissional deu os primeiros passos.

Massoterapia

Aos 22 anos, Mirna trabalhava numa loja da família em Porto. Lá, começou um treinamento de massoterapia e seguiu para trabalhar no arquipélago de Fernando de Noronha. A empresa onde atuava não durou muito tempo, mas conheceu uma das figuras que ajudariam a mudar sua vida. Zé Maria, proprietário da pousada que recebe seu nome, convidou Mirna para continuar o trabalho, mesmo após o desmonte da empresa que prestava serviços.

“Zé foi um dos maiores incentivadores da minha vida. Foi lá que eu fiquei por três anos e conheci minha esposa. Fiquei lá de 2006 a 2009 e fui morar com minha companheira em São Paulo”, relembra.

Exibe uma de suas paixões: o baobá | Foto: André Soares/PorAqui

Gastronomia

A primeira cliente de massagem foi a renomada chef Bel Coelho. Indecisa sobre em qual curso se graduar, optou pela gastronomia. Seu primeiro estágio acabou sendo no restaurante da sua primeira cliente, o consagrado DUI. De lá, passou pelo Mani, dos chefs Helena Rizzo e Daniel Redondo. “Quem indicou para o Mani foi o próprio Zé Maria. Depois ainda trabalhei na consultoria Dedo de Moça e no Clô”. Seguiu para estagiar no conceituado El Celler de Can Roca, restaurante espanhol com três estrelas no Guia Michelin, considerado um dos melhores do mundo.

Preconceito

Mesmo com tantas mulheres no comando de renomadas cozinhas, o preconceito apresenta suas formas multifacetadas. “Já aconteceu de uma pessoa não me promover com o argumento que eu já cozinhava bem e não precisava saber administrar. Sou mulher, negra, gay e venho da periferia. Brigamos e sabemos que o nosso lugar é onde queremos chegar, mas o caminho que temos que percorrer é muito mais longo que o do homem branco e hetero“, explica Mirna, que, apesar de tudo, insiste que é necessária a prática da empatia.

“As pessoas precisam saber que se você diz que meu serviço é ruim porque é de preto, me ofende. Crescemos ouvindo a vida inteira sobre nosso cabelo, nossa cor, mas é preciso educar as pessoas a exercerem essa empatia”, esclarece.

Mirna em prova no Masterchef | Foto: Divulgação/Band

Alta Gastronomia

Mirna não queria estudar gastronomia porque achava muito sofisticado. Este tipo de alimentação, sempre associada aos preços elevados dos pratos, ganha outra conotação no mundo da chef.

“Alta gastronomia de verdade é usar o ingrediente na sua melhor forma”, explica Mirna que, atualmente, ao lado da finalista potiguar Irina Cordeiro e do Masterchef paulista Guilherme Cardadeiro, dão os primeiros passos do projeto Bioma, que visa utilizar a arte da cozinha de forma educativa e profissionalizante.